3 DE SET DE 2026
A IA pode vencer. E ainda assim existir uma bolha.
O que a Railway Mania do século XIX revela sobre a corrida trilionária pela infraestrutura de Inteligência Artificial.
O que a Railway Mania do século XIX revela sobre a corrida trilionária pela infraestrutura de Inteligência Artificial.
Estamos construindo a infraestrutura do próximo século — ou financiando uma das maiores bolhas de capital da história?
Em novembro de 1845, a Inglaterra estava convencida de que havia encontrado o futuro.
E, de certa maneira, havia.
O Parlamento britânico autorizava a construção de mais de 8.500 milhas de novas ferrovias. O volume de capital comprometido equivalia a quase metade da renda nacional do país.
Todo mundo queria participar.
Açougueiros. Comerciantes. Párocos. Viúvas investindo suas economias. Pequenos poupadores.
As pessoas compravam ações de companhias ferroviárias que, em muitos casos, existiam apenas no papel.
Era a tecnologia do futuro.
Era uma nova infraestrutura econômica.
Era uma transformação inevitável.
E era também uma enorme bolha especulativa.
Dezoito meses depois, muitas dessas ações haviam perdido aproximadamente metade do valor. Cerca de um terço das linhas autorizadas jamais seria construído.
As ferrovias venceram.
Muitos investidores, não.
Guarde essa frase.
Porque talvez ela diga muito sobre o momento que estamos vivendo com a Inteligência Artificial.
Hoje, quando Wall Street tenta compreender a quantidade quase inacreditável de dinheiro sendo direcionada para data centers, chips, energia e infraestrutura de IA, uma comparação começa a aparecer com frequência:
Railway Mania.
A febre ferroviária britânica da década de 1840.
E a pergunta que realmente importa não é se a analogia é interessante.
É outra:
Estamos diante da construção da infraestrutura tecnológica mais importante deste século ou de um excesso de capital que o mercado ainda não consegue economicamente justificar?
Talvez as duas coisas.
Primeiro, precisamos olhar o tamanho do cheque
Quando falamos de Inteligência Artificial, existe um risco enorme de ficarmos presos à camada visível.
ChatGPT.
Copilots.
Agentes.
Modelos.
Aplicações.
Mas existe outra guerra acontecendo por baixo da interface.
Uma guerra de infraestrutura.
Microsoft, Amazon, Alphabet, Meta e Oracle investiram juntas aproximadamente US$ 238 bilhões em capex em 2024.
Em 2025, esse número teria saltado para aproximadamente US$ 429 bilhões.
Um crescimento de cerca de 73% em apenas um ano.
Agora veja a projeção para 2026:
entre US$ 775 bilhões e US$ 800 bilhões.
Estamos falando de um crescimento adicional próximo de 64%.
Não é apenas muito dinheiro.
É uma aceleração extraordinária de capital.
E quando olhamos para a próxima década, o número começa a ganhar outra dimensão.
O Goldman Sachs projeta aproximadamente US$ 5,3 trilhões em capex apenas para quatro grandes hyperscalers entre 2025 e 2030.
Em uma leitura mais ampla, considerando computação, data centers e energia, as estimativas chegam a aproximadamente:
US$ 7,6 trilhões entre 2026 e 2031.
Trilhões.
Não bilhões.
É aqui que precisamos entender uma coisa.
A IA deixou de ser apenas uma categoria de software.
Ela está se tornando infraestrutura.
Computação.
Energia.
Data centers.
Redes.
Chips.
Memória.
Sistemas de refrigeração.
Capacidade elétrica.
E talvez essa seja uma das grandes mudanças de perspectiva necessárias para compreender a próxima década.
Mas existe um detalhe que começa a chamar atenção
O ritmo desse investimento não está apenas aumentando.
A forma de financiá-lo também está mudando.
O capex combinado dessas empresas vem crescendo a uma taxa média anual de aproximadamente 72% desde o segundo trimestre de 2023.
Mais importante ainda: uma parcela cada vez maior do fluxo de caixa operacional está sendo consumida pela infraestrutura.
Em 2025, descontando dividendos e recompras, o capex teria atingido aproximadamente 94% do fluxo de caixa operacional dessas empresas.
Isso começou a empurrar algumas delas para o mercado de dívida.
Segundo o Bank of America, aproximadamente US$ 75 bilhões em empréstimos foram levantados recentemente para financiar data centers relacionados à IA.
Mais do que o dobro da emissão média anual da última década.
E aqui começa a surgir uma pergunta desconfortável:
Em algum momento essa infraestrutura precisa produzir retorno econômico proporcional ao capital colocado nela.
Tecnologia pode transformar o mundo.
Mas capital tem uma regra muito antiga:
Em algum momento, precisa retornar.
E foi exatamente isso que aconteceu com as ferrovias
Existe uma tendência de olhar para a Railway Mania como uma simples história de especulação financeira.
Não foi.
As ferrovias eram uma tecnologia real.
Transformadora.
E absolutamente necessária para a economia que surgiria depois.
No auge da expansão ferroviária britânica, algumas estimativas colocam os investimentos próximos de 7% do PIB, representando quase metade de todo o investimento realizado na economia.
Outras análises chegam a números ainda maiores.
Por volta de 1850, aproximadamente £250 milhões já haviam sido investidos em ferrovias.
Algo próximo de metade do PIB britânico daquele período.
Ou seja:
não havia dúvida de que a tecnologia era transformadora.
O problema estava na velocidade, na quantidade e na qualidade do capital sendo alocado.
E aqui está talvez a primeira grande lição histórica.
Uma tecnologia pode estar absolutamente certa e o investimento economicamente errado.
Isso acontece porque mercados não investem apenas em tecnologia.
Investem em expectativas.
E expectativas podem crescer muito mais rápido do que receitas.
O verdadeiro motor das bolhas: o medo de ficar de fora
Existe uma expressão que usamos hoje:
FOMO — Fear of Missing Out.
O medo de ficar de fora.
Mas o comportamento é muito mais antigo do que o acrônimo.
Durante a Railway Mania, centenas de projetos ferroviários foram apresentados ao Parlamento britânico.
Em 1846, foram aprovados 272 novos atos ferroviários.
Rotas concorrentes.
Projetos redundantes.
Linhas que provavelmente jamais seriam economicamente sustentáveis.
Por quê?
Porque ninguém queria ficar fora da próxima grande infraestrutura econômica.
Agora observe o discurso das grandes empresas de tecnologia em 2025 e 2026.
Capacidade.
Computação.
Escala.
Infraestrutura.
Demanda futura.
Corrida tecnológica.
Há claramente uma percepção de que ficar sem capacidade computacional suficiente pode significar perder a próxima década.
E isso transforma investimento em uma espécie de corrida armamentista.
Cada empresa olha para o movimento da concorrente e conclui:
“Se eles estão construindo, nós também precisamos construir.”
O problema é que decisões individualmente racionais podem produzir excessos coletivos.
Foi assim com as ferrovias.
Foi assim com fibra óptica.
Foi assim com vários ciclos tecnológicos.
Talvez esteja acontecendo novamente.
Existe um segundo sinal: o capital começa a se afastar da receita atual
Esse é provavelmente o ponto mais importante de toda essa discussão.
A infraestrutura está crescendo mais rápido do que a capacidade atual de monetização da IA.
Uma análise bastante conhecida da Sequoia calculou que a indústria precisaria gerar aproximadamente US$ 600 bilhões em receita anual para justificar determinados níveis de investimento em infraestrutura.
As estimativas atuais de receita diretamente atribuível à IA ainda ficam significativamente abaixo desse patamar — entre aproximadamente US$ 50 bilhões e US$ 150 bilhões, dependendo da metodologia.
Existe, portanto, um gap.
Capital de um lado.
Receita do outro.
E entre eles existe uma palavra:
expectativa.
Recentemente aconteceu algo relevante.
No quarto trimestre de 2025, as receitas trimestrais de IA teriam finalmente ultrapassado a depreciação trimestral da infraestrutura.
É um marco importante.
Mas há uma ressalva.
A enorme onda de capex projetada para 2026 ainda começará a entrar no cronograma de depreciação nos próximos anos.
Então a pergunta continua aberta:
A demanda econômica por IA crescerá tão rápido quanto a capacidade computacional que estamos construindo?
Essa é a pergunta de trilhões de dólares.
Literalmente.
Mas existe uma diferença gigantesca em relação às ferrovias
E ela não pode ser ignorada.
Na Inglaterra do século XIX, boa parte do capital vinha de investidores comuns.
Famílias.
Pequenos poupadores.
Pessoas que muitas vezes comprometiam uma parcela significativa do patrimônio.
Hoje, quem está pagando boa parte dessa conta são empresas como Microsoft, Amazon, Alphabet e Meta.
Algumas das empresas mais rentáveis da história.
Elas possuem negócios maduros.
Cloud.
Publicidade.
Busca.
E-commerce.
Software empresarial.
Geram dezenas de bilhões de dólares de caixa.
Isso muda completamente o risco sistêmico.
Se uma parte dos investimentos não produzir o retorno esperado, provavelmente teremos destruição de capital.
Mas isso não significa necessariamente uma crise semelhante à Railway Mania.
O investidor marginal é diferente.
E isso importa muito.
Existe ainda outra diferença: GPUs não são trilhos
Uma ferrovia construída em 1845 poderia existir durante décadas.
Uma GPU comprada hoje pode perder relevância tecnológica em poucos anos.
A velocidade de obsolescência é completamente diferente.
Isso significa que um excesso de capacidade de IA pode desaparecer mais rapidamente.
Hardware envelhece.
Modelos se tornam mais eficientes.
O custo computacional cai.
Novas arquiteturas aparecem.
A demanda aumenta.
Por isso talvez exista uma analogia histórica ainda mais interessante:
a bolha da fibra óptica do início dos anos 2000.
Naquele período, empresas investiram massivamente em infraestrutura de telecomunicações.
Houve excesso.
Empresas quebraram.
Capital foi destruído.
Mas a infraestrutura continuou lá.
E posteriormente foi utilizada para construir boa parte da economia digital que conhecemos hoje.
Novamente:
A tecnologia venceu.
Muitos investidores não.
E então aparece o Paradoxo de Jevons
Existe ainda um argumento poderoso utilizado por executivos do setor.
Se a IA ficar mais barata, mais eficiente e mais acessível, isso necessariamente reduzirá o consumo de computação?
Provavelmente não.
Pode acontecer exatamente o contrário.
É o chamado Paradoxo de Jevons.
Quando uma tecnologia se torna mais eficiente, seu custo de utilização cai.
Quando o custo cai, surgem novas aplicações.
Quando surgem novas aplicações, o consumo total aumenta.
Pense na computação.
Computadores ficaram milhares de vezes mais eficientes.
Consumimos menos computação?
Não.
Consumimos exponencialmente mais.
O mesmo aconteceu com internet.
Armazenamento.
Largura de banda.
E pode acontecer com Inteligência Artificial.
Se o custo de uma inferência cair 90%, talvez não utilizemos 90% menos computação.
Talvez criemos cem novas aplicações que antes não eram economicamente viáveis.
Agentes.
Robôs.
Medicina.
Engenharia.
Indústria.
Logística.
Educação.
Pesquisa científica.
Empresas inteiras operadas sobre arquiteturas de IA.
É exatamente essa tese que sustenta boa parte da corrida atual por infraestrutura.
Então estamos vivendo uma bolha?
Minha leitura é que essa é a pergunta errada.
A pergunta melhor seria:
Existe excesso de capital sendo investido em uma tecnologia estruturalmente transformadora?
E aqui minha resposta tende a ser:
provavelmente sim.
Mas isso não significa que a Inteligência Artificial seja uma bolha.
Existe uma diferença enorme.
A internet não foi uma bolha.
Empresas de internet foram.
Fibra óptica não foi uma bolha.
Determinados investimentos em fibra foram.
Ferrovias não foram uma bolha tecnológica.
Muitas companhias ferroviárias foram.
Talvez estejamos diante do mesmo fenômeno.
A tecnologia pode estar correta e a avaliação econômica errada.
As duas coisas podem coexistir.
E frequentemente coexistem durante grandes revoluções tecnológicas.
Existe uma lição ainda maior aqui
Toda grande transformação tecnológica passa por uma fase em que infraestrutura precisa ser construída antes que todas as aplicações econômicas estejam claras.
Foi assim com eletricidade.
Ferrovias.
Telecomunicações.
Internet.
Cloud.
Agora estamos vendo isso acontecer novamente com a Inteligência Artificial.
Estamos construindo uma nova camada da economia.
Uma infraestrutura cognitiva.
Máquinas capazes de interpretar.
Raciocinar.
Gerar.
Decidir.
Executar.
E progressivamente agir de forma autônoma dentro de organizações.
Isso exigirá uma quantidade gigantesca de computação.
A dúvida não é se utilizaremos mais IA.
Utilizaremos.
A dúvida é:
quanto da infraestrutura sendo construída hoje estará economicamente bem posicionada quando essa demanda chegar?
Porque infraestrutura sem utilização é capital imobilizado.
E infraestrutura na localização errada, com arquitetura errada, custo energético errado ou tecnologia errada pode rapidamente se transformar em prejuízo.
O que os líderes deveriam aprender com tudo isso?
Não acredito que a principal lição seja “cuidado com a bolha da IA”.
Seria simplista.
A verdadeira lição é outra.
Estamos entrando em uma fase muito mais madura da Inteligência Artificial.
A primeira fase foi:
experimentar IA.
A segunda foi:
adotar IA.
Agora estamos entrando na terceira:
transformar IA em infraestrutura econômica.
E quando isso acontece, as perguntas mudam.
Já não basta perguntar:
“Qual ferramenta devemos usar?”
Agora precisamos perguntar:
Qual processo será transformado?
Qual problema econômico será resolvido?
Qual métrica será melhorada?
Qual ROI será produzido?
Qual arquitetura será necessária?
Qual risco estamos assumindo?
Qual governança precisa existir?
E principalmente:
Onde a IA cria vantagem competitiva real?
Essa mudança de pergunta será decisiva.
O futuro costuma ser construído antes de ser compreendido
Quando os primeiros trilhos começaram a atravessar a Inglaterra, provavelmente poucas pessoas conseguiam imaginar todas as consequências econômicas daquela infraestrutura.
Novas cidades.
Novas cadeias logísticas.
Novos mercados.
Novos modelos de negócio.
Novas formas de mobilidade.
A ferrovia não apenas transportou pessoas.
Ela reorganizou a economia.
Talvez estejamos vivendo algo semelhante.
A Inteligência Artificial provavelmente não será apenas uma tecnologia utilizada pelas empresas.
Ela tende a se tornar parte da própria arquitetura das empresas.
Da decisão.
Da operação.
Da produtividade.
Da inovação.
Do conhecimento.
E progressivamente da autonomia organizacional.
Mas a história das ferrovias deixa uma advertência que continua extremamente atual:
tecnologia transformadora não garante retorno para todo mundo que investir nela.
Talvez algumas das maiores fortunas das próximas décadas estejam sendo construídas agora.
E talvez algumas das maiores destruições de capital também.
As duas coisas não são contraditórias.
Na verdade, historicamente, quase sempre caminham juntas.
Porque toda revolução tecnológica produz vencedores.
Produz infraestrutura.
Produz excesso.
Produz aprendizado.
E produz seleção.
No final, a pergunta talvez não seja se estamos diante de uma nova Railway Mania.
A pergunta é:
quando essa nova infraestrutura econômica estiver consolidada, de que lado da transformação sua empresa estará?
Porque velhos mapas não nos levarão para novos caminhos.
E talvez estejamos, neste exato momento, construindo os trilhos da próxima economia.
Para refletir
A IA não precisa ser uma bolha para existir uma bolha em torno da IA.
Essa talvez seja a distinção estratégica mais importante para compreendermos os próximos anos.
A tecnologia pode vencer.
O mercado pode crescer.
A sociedade pode ser transformada.
E, ainda assim, bilhões — talvez trilhões — podem ser destruídos durante o processo.
Foi assim antes.
Pode ser assim novamente.
A diferença é que, desta vez, estamos assistindo à construção dos trilhos em tempo real.
Quer levar essa visão para sua empresa? Ou entender como aplicar essa tese na sua realidade? Fale conosco. A hora de arquitetar o futuro… é agora.
Artigo desenvolvido a partir da análise original e dos dados e referências compilados no material-base das fontes:
Fontes utilizadas
Visual Capitalist — Charted: The $448B AI Spending Surge by Big Tech
A.L. Capital Advisory — The AI Capex Cycle: $775–800B Hyperscaler Buildout
Yahoo Finance / Goldman Sachs — $5.3 trillion hyperscaler capex forecast
Goldman Sachs — Tracking Trillions: The Assumptions Shaping the Scale of the AI Build-Out
A Wealth of Common Sense — The Railway Bubble vs. the AI Bubble
FocusEconomics — Railway Mania: The Largest Speculative Bubble You've Never Heard Of
Market Histories — The Railway Mania: Britain's Victorian Tech Bubble
tooldirectory.ai— AI capex bubble 2026: $725B in, where revenue actually is
Luminix — AI CapEx Bubble Risk: $600B Revenue Hurdle vs. $150B Reality
aitooldiscovery.com— Is AI a Bubble? $690B Capex vs $13B Revenue in 2026
Fonte: LinkedIn