14 DE SET DE 2021
A industria de mobilidade em mudança
Por muito tempo, os principais fabricantes de veículos do mundo se autodenominavam montadoras globais — e com razão. Modelos globais montados em um mundo “cada vez menor” (mais interligado) foram direcionados a públicos cada vez mais alinha
Desafios para a mobilidade urbana na era da Indústria 4.0
Apesar da corrida tecnológica internacional no setor de transportes, o parque industrial brasileiro enfrenta dificuldades para se adaptar ao novo horizonte
Por muito tempo, os principais fabricantes de veículos do mundo se autodenominavam montadoras globais — e com razão. Modelos globais montados em um mundo “cada vez menor” (mais interligado) foram direcionados a públicos cada vez mais alinhados com suas propostas.
Construindo veículos em plataformas globais, em fábricas padronizadas suportadas e acompanhadas por gigantes – Tier 1 – com cadeias de suprimentos enxutas e muitas vezes “longas”, as montadoras pareciam buscar a expansão, globalização e volume de vendas a qualquer custo.
No entanto, ser uma montadora global e manter tais operações ficou cada vez mais caro e questionável.
Os desafios à frente da indústria automobilística vem crescendo – a necessidade de cumprir regulações cada vez mais rigorosas; a necessidade de mostrar a liderança nas tecnologias de ACES (Autônomos, Conectados, Elétricos e Compartilhados) emergentes; a luta para sustentar a participação de mercado e a lucratividade nos mercados tradicionais e segmentos – tudo isso acompanhado da queda nas vendas, à medida que os consumidores questionam até mesmo a necessidade de possuir um carro. Manter a presença em mercados altamente competitivos a quase qualquer custo não se tornou mais uma opção.
Consideremos a aliança de Renault, Nissan e Mitsubishi, que definiu seu foco em eficiência, em vez de volume. O resultado foi a distribuição das responsabilidades regionais: a Nissan será referência na China, América do Norte e Japão; Renault na Europa, Rússia, América do Sul e Norte da África e a Mitsubishi Motors atuará no Sudeste Asiático e Oceania.
A mensagem, portanto, é clara: a chave para a sobrevivência não está necessariamente em uma fusão de montadoras globais, mas em uma aliança mais integrada com especialistas de cada região e setor.
A tendência é confirmada pela aliança entre Ford e Volkswagen em uma variedade de projetos, inclusive veículos elétricos (EV’s), veículos autônomos (AV’s), comerciais leves (LCV’s) e Pick-ups Mid-size.
A indústria automobilística entrou agora em uma era de novo realismo, para a qual as perdas a longo prazo ou o fraco desempenho não são mais tolerados.
Além das inúmeras pressões comerciais e regulatórias já citadas, existem outras questões mais amplas que orientam as estratégias globais das montadoras, incluindo geopolítica, protecionismo, guerras comerciais e, agora, é claro, a pandemia do novo coronavírus.
Quando a cidade de Wuhan, por exemplo, entrou em confinamento, a fragilidade das longas cadeias globais de suprimentos tornou-se evidente. As primeiras paralisações de montadoras na Europa foram atribuídas à escassez de peças oriundas da China e as paradas de fábricas nas Américas ocorreram inicialmente devido a interrupções no fornecimento de peças da Europa.
Mas, NÃO! A pandemia do coronavírus não criou fragilidade na indústria automotiva global – simplesmente expôs condições pré-existentes, levantando questões urgentes e importantes para as montadoras sobre suas estratégias.
Com a maioria dos mercados enfrentando a perspectiva de uma queda nas vendas pós Covid-19, já presenciamos e poderemos ver alguns fechamentos de operações não lucrativas ou incapazes de se adequar à nova realidade. No entanto, o destino depende das estratégias empregadas para gerar liquidez, resistir à pandemia, sobreviver à recessão e oferecer ao mercado produtos alinhados à nova demanda do consumidor e tecnológica.
Por isso, prever o mercado em meio a tantas mudanças é impossível, até que se tenham dados confiáveis disponíveis.
Claro que o transporte é essencial para a afirmação da dignidade humana, pois permite a realização dos direitos fundamentais como saúde, habitação e educação. Essa primordial necessidade de deslocamento refletiu na exploração política e econômica da ideia de que ter um carro amplia as possibilidades e liberdades, resultando na mobilidade rodoviarista e individualista. A indústria automotiva firmou-se como símbolo gerador de emprego, impulsionador do desenvolvimento e produtor de riqueza. Mas as políticas que sobrevalorizaram o automóvel trouxeram também reveses: espaço público desumanizado, poluição do ar, crise climática e mortalidade no trânsito comparável a guerras. Com isso, o caminho do bem viver nas cidades passa pela priorização dos deslocamentos a pé, por bicicleta e transporte coletivo.
No mundo, perspectivas de uma nova mobilidade surgem a reboque da Quarta Revolução Industrial. É difundida a ideia de que os veículos serão autônomos, conectados, elétricos e compartilhados – conhecidos pela sigla em inglês “ACES”. Está em curso uma corrida tecnológica com parcerias entre a indústria automotiva e a da tecnologia da informação como as “big techs” (como Microsoft, Google e Apple) e as novas empresas de aplicativos de transporte (como Uber, Lift, Didi).
Como as 15 maiores empresas de tecnologia são cinco vezes maiores na capitalização de mercado do que as 50 mais tradicionais montadoras, espera-se uma remodelação com fortes implicações na mobilidade urbana. Nascem novos modelos de negócios com foco na oferta de serviços viabilizados pelas novas tecnologias da informação. Caso apenas o transporte individual seja alvo das transformações, essa “nova mobilidade” continuará estruturalmente velha.
Nas cidades brasileiras, o transporte público se degrada com número decrescente de passageiros e aumento das insatisfações com os preços de passagens e combustíveis. O modelo de financiamento dos serviços de transporte, baseado no pagamento de tarifa, é insustentável e incapaz de alçar o transporte público ao patamar em que supra as necessidades da população e desbanque o automóvel como preferido. E a pandemia exacerbou o problema. (…)
Vermos novas formas de mobilidade surgirem e se consolidarem... Fiquemos vigilantes !
Fonte: LinkedIn