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1 DE SET DE 2017

Da Gestão Tradicional para a Cidade Inteligente

“...velhos problemas persistem e ganham escala, e novos surgem a cada dia”.

2050 CIDADES Da Gestão Tradicionalpara a Cidade Inteligente ROGER MEDKE · 1 DE SET DE 2017

“...velhos problemas persistem e ganham escala, e novos surgem a cada dia”.

Inovação e Tecnologia são os meios para mudar essa realidade e preparar as nossas cidades para a nova era da Urbanização, da Revolução Digital da Sociedade 

Vivemos na convergência de três fenômenos importantes na história da humanidade: a aceleração da urbanização global, a revolução digital e a sociedade se tornando mais inteligente. Um estudo da Organização das Nações Unidas (ONU) aponta que, pela primeira vez na história, mais da metade da população no planeta (54,6% ou 3,6 bilhões de pessoas) vive em cidades. Esse estudo aponta que, em 2050, 70% da população global (mais de seis bilhões) viverão em cidades 64,1% das pessoas nos países em desenvolvimento e 85,9% dos habitantes dos países desenvolvidos estarão morando em áreas urbanas. 

Depois da América do Norte, que já possui 82% de sua população vivendo em áreas urbanas, a região formada pela América Latina e Caribe, é a segunda no mundo com maior contingente populacional, 80% de seus habitantes vivendo em áreas urbanas. Esse fenômeno de urbanização se acelerou na segunda metade do século XX, já que em 1950 apenas 42% da população da região viviam em cidades.

Planejar, gerenciar e governar cidades de forma sustentável, maximizando as oportunidades econômicas e minimizando os danos ambientais são grandes desafios que praticamente todos os países vão enfrentar neste novo século. Os recursos públicos precisam ter melhor utilização e os ativos naturais precisam ser explorados de forma consciente e responsável.

Todos os aglomerados urbanos apresentam desafios a serem enfrentados. As grandes cidades e as áreas metropolitanas, por sua vez, são vistas cada vez mais como sistemas complexos com conexões entre seus diferentes ambientes e indivíduos. Por isso cresce a importância do planejamento urbano e do desenvolvimento de mecanismos de decisão dinâmicos, que levem em conta o crescimento e a inclusão de processos de participação cidadã.

Para gerenciar e melhorar as cidades é preciso conhecer o que ocorre nelas, em suas diferentes regiões, e isso só é possível com mudanças nas estruturas de governo e nos processos de comunicação e participação dos diferentes atores que atuam em sua gestão. 

Por isso, transformar “cidades tradicionais” em Smart Cities, ou Cidades Inteligentes, é uma demanda cada vez mais importante e também uma oportunidade para governos e cidadãos da América Latina e Caribe. Com o surgimento da tecnologia digital, da internet e das tecnologias móveis, essa transformação se torna mais viável a cada dia.

Uma Cidade Inteligente e Sustentável é uma cidade inovadora que utiliza as Tecnologias de Informação e Comunicação e outros meios para melhorar a qualidade de vida, a ciência das operações, serviços urbanos e sua competitividade, enquanto garante o atendimento das necessidades das gerações atuais e futuras com relação aos aspectos econômicos, sociais e ambientais. Além disso, ela é atrativa para os cidadãos, empreendedores e trabalhadores, e ecossistema mais seguro, com melhores serviços e com um ambiente de inovação que estimula soluções criativas, gerando empregos e reduzindo as desigualdades, promovendo um ciclo virtuoso que produz não apenas bem-estar econômico e social, mas também garante um uso sustentável de seus recursos de maneira a garantir a qualidade de vida no longo prazo.

As Smart Cities usam conectividade, sensores distribuídos pelo ambiente e sistemas computadorizados de gestão inteligente para solucionar problemas imediatos, organizar cenários urbanos complexos, e criar respostas inovadoras e alinhadas às necessidades de seus cidadãos. Para garantir essa gestão eficiente e sustentável, as tecnologias das Smart Cities integram e analisam uma quantidade gigantesca de dados gerados, capturados de diversas fontes, para antecipar, mitigar e até prevenir crises. Esses mecanismos permitem fornecer, de forma proativa, serviços, alertas e informações aos cidadãos.

No entanto, ainda que importante, a tecnologia é apenas uma ferramenta que deve se aliar ao processo de planejamento e de gestão. O uso das TICs deve gerar mudanças nos processos, retroalimentar o planejamento, modificar dinâmicas nas prestações de serviços públicos, transformar problemas em soluções criativas, agregar valor à infraestrutura instalada, e gerar melhoria em indicadores de desempenho. Ou seja, o processo de fazer uma cidade mais inteligente traz resultados efetivos e mensuráveis, que podem ser acompanhados pelos moradores e por quem visita a cidade. Contudo, cidades tornam-se inteligentes apenas quando conseguem tratar de seus complexos desafios de maneira integral. Nesse sentido, devem ir além da tecnologia, e se valer dos ativos e informações em nível local para elaborar uma estratégia de desenvolvimento que contemple aspectos ambientais, urbanos, sociais e econômicos. Como combinar essa variedade de elementos em um plano ao mesmo tempo sólido, integrado e abrangente? 

A Iniciativa Cidades Emergentes e Sustentáveis (ICES) programa do BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento) iniciado em 2011 afim de apoiar cidades médias da América Latina e Caribe a enfrentar os seus desafios de sustentabilidade a curto, médio e longo prazos tem sua metodologia baseada em três dimensões de sustentabilidade ambiental, urbana e fiscal/governança e busca oferecer uma estratégia integrada e abrangente de desenvolvimento. A quem interessar saber mais - ICES.

Ampliar o uso de tecnologias para melhorar a gestão das cidades e a provisão de serviços é um eixo de trabalho relevante no âmbito da ICES. A construção de Cidades Inteligentes deve fazer parte de um desenvolvimento mais amplo e é muito importante para superar os desafios urbanos. Ao longo da aplicação da metodologia ICES em a qual se deu em mais de 60 cidades, observou-se frequentemente uma falta de entendimento e conhecimento no setor público sobre como combinar tecnologia e gestão para melhorar a vida das pessoas.

Planejar, gerenciar e governar cidades de forma sustentável, maximizando oportunidades econômicas e minimizando danos ambientais são desafios que praticamente todos os países enfrentarão neste século.

O que é uma Cidade Inteligente ?

Uma Cidade Inteligente é aquela que coloca as pessoas no centro do desenvolvimento, incorpora tecnologias da informação e comunicação na gestão urbana e utiliza esses elementos como ferramentas que estimulam a formação de um governo eficiente, que engloba o planejamento colaborativo e a participação cidadã. Smart Cities favorecem o desenvolvimento integrado e sustentável tornando-se mais inovadoras, competitivas, atrativas e resilientes, melhorando a qualidade de vida do Cidadão e reconstruindo a cidadania. 

A transformação e modernização da gestão da cidade gera uma série de resultados concretos e positivos, com ganhos de eficiência por meio da integração de diferentes áreas de atuação (mobilidade, tráfego, segurança, vigilância, água, energia, gestão de resíduos, etc.). Atuando de forma colaborativa, os gestores compartilham informações de qualidade para a prestação de melhores serviços para a população. Em síntese uma Cidade Inteligente:

"Os governos sabem o quanto têm dificuldade em inovar, mas estão conscientes da necessidade de evoluir com os avanços tecnológicos" 

O conceito de gestão urbana passa por transformações impactantes com a apropriação das mais recentes tecnologias de comunicação e informação. Várias metrópoles têm investido no conceito de "smart city", ou "cidade inteligente", com objetivo de criar formas de ação diferenciadas para gestores públicos e cidadãos. Nessa linha, um novo estudo do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), chamado "Caminho para as Smart Cities: da Gestão Tradicional para a cidade inteligente", analisa iniciativas na América Latina e Caribe realizadas com apoio do banco. "As pessoas têm um papel muito importante enquanto beneficiários e participantes das transformações, a partir do uso de dispositivos e aplicativos móveis que facilitam cada vez mais a colaboração com as políticas de seus governantes", diz a publicação.

Segundo projeções da Organização das Nações Unidas (ONU), cerca de 70% da população global viverá em grandes cidades até 2050.

Future City Glasgow

O artigo "Future City Glasgow, programas de ação, tensões e contradições em um projeto de smart city", assinado por André Lemos e pelo pesquisador André Holanda, propõe, para um melhor entendimento dos projetos, um conjunto de modelos que podem se combinar: o panóptico, baseado em monitoramento, no qual o cidadão é objeto de vigilância municipal; o de gestão urbana, focado nos serviços públicos; e o modelo "open data", de transparência pública, em que o Estado é monitorado pela população. "É preciso ter em mente que não há relação necessária entre projetos baseados em dados e propostas transformadoras, participativas ou de empoderamento. Cabe saber como se constrói o lugar das tecnologias da informação na cidade que se pretende, assim como cabe definir quais são o lugar e o papel do cidadão em cada regime estabelecido", diz o artigo. 

As grandes e modernas cidades são, talvez, as mais importantes realizações do homem por serem responsáveis, inclusive, por grande parte de uma série de fatores que determinam o quanto a cidade é inteligente e o quanto os cidadãos são conectados com ela.

Para entender quais as características de uma cidade inteligente e conectada, quais os indicadores devem ser levados em consideração para essa análise, qual o papel do cidadão no desenvolvimento de cidades conectadas e quais as soluções no curto, médio e longo prazo, o Connected Smart Citys foi criado. “Nós, idealizadores do evento, acreditamos que uma Smart city é aquela que cresce de forma planejada por meio de análises do desenvolvimento de alguns indicadores básicos como economia, mobilidade, governo, meio ambiente, urbanismo e qualidade de vida”, explica Paula Faria, diretora executiva do Setor, empresa idealizadora e organizadora do evento.

O Connected Smart Cities 2017, aconteceu nos dias 21 e 22 de junho, no Centro de Convenções Frei Caneca, em São Paulo, com o objetivo de debater iniciativas para tornar as nossas cidades mais inteligentes e conectadas. “Por meio do intercâmbio de informações, unimos empresas de serviços e tecnologia de ponta, especialistas, prefeituras e pessoas engajadas com a otimização das cidades do Brasil, buscando inspiração em soluções implantadas nas cidades mais inteligentes do mundo”, completa Paula.

O Connected Smart Cities envolve empresas, entidades e governos em um evento que tem por missão encontrar o DNA de inovação e melhorias para cidades mais inteligentes e conectadas umas com as outras, sejam elas pequenas ou megacidades.

A plataforma Connected Smart Cities engloba as seguintes vertentes: o desenvolvimento de um Ranking de Smart Cities do Brasil; um Prêmio que vai reconhecer as melhores iniciativas desenvolvidas para a melhoria de cidades; um Fórum que trará especialistas para a discussão dos principais temas relacionados ao desenvolvimento urbano; e uma Expo que contará com a exposição de empresas patrocinadoras do projeto e uma Rodada de Negócios onde as empresas compradoras e vendedoras terão a oportunidade de estabelecer relações e fazer negócios. O Ranking Connected Smart Cities foi lançado em 2015, com uma lista das cidades brasileiras mapeadas ao longo de 2014 e que tinham, na ocasião, maior potencial de desenvolvimento. A metodologia foi desenvolvida pela Urban Systems em parceria com o Setor, a partir do levantamento das principais publicações nacionais e internacionais sobre o tema cidades inteligentes, conectadas e sustentáveis. Com base nestes estudos, foram elencados cerca de 300 indicadores, que deram origem à seleção final de 70 que eram possíveis serem mensurados nas cidades brasileiras. A partir daí, estes 70 indicadores foram desenvolvidos e coletados em banco de dados de organismos nacionais como Ministérios, Secretarias, Agências Reguladoras, entre outros. 

Em um futuro não muito distante, os sistemas de saneamento, iluminação, transporte e segurança estarão conectados à rede. Sensores irão identificar se o pedestre é portador de alguma necessidade especial e ampliar o tempo em que o semáforo ficará fechado. Cada cidadão poderá acessar, por meio de aplicativos de celular, uma série de dados que o ajudará a definir melhores rotas para chegar ao trabalho, desviar de congestionamentos e até mesmo achar vagas para estacionar. Será possível carregar seu celular por meio de energia solar no ponto do ônibus e até monitorar o consumo de água. 

Novas maneiras de Gerir as Cidades

Grande parte da população brasileira vive em cidades, e como nos demais países da América Latina e Caribe, a tendência é que siga aumentando, segundo estatística da ONU, em 2050 85% no Brasil. Com essa perspectiva, a complexidade da gestão do desenvolvimento urbano sustentável também leva à busca por soluções que promovam melhor qualidade de vida aos cidadãos se mostra um imperativo. Estes desafios são também uma oportunidade de buscar novas maneiras de pensar as cidades e como podemos criar melhores condições de convivência para nossa geração e as futuras. O compromisso está em nossas mãos, cidadãos, sociedade civil, setor privado, gestores públicos e governantes de unir o modelo de cidade que queremos. A cidade participativa é consequentemente mais pulsante, e só a partir daí é possível construir a inteligência abordada neste guia, que é por natureza coletiva, colaborativa e entusiasta.

As Cidades Inteligentes favorecem o desenvolvimento integrado e sustentável, tornando-se mais inovadoras, competitivas, atrativas e resilientes. Cuidam de seus desafios sob um enfoque multissetorial, analisam variáveis distintas para um mesmo problema, e recorrem às novas tecnologias para implantar e dar escala às idéias.

No Brasil, a Iniciativa Cidades Emergentes e Sustentáveis (ICES) tem ajudado as cidades de Goiânia, João Pessoa, Vitória, Florianópolis, Palmas e Três Lagoas nestes esforços, seja criando ambientes colaborativos para a resolução de problemas, avaliando o nível do uso de tecnologias na gestão municipal, construindo plataformas de interação entre governos e cidadãos para apoiar a tomada de decisão.

Para que estas iniciativas aconteçam é necessário um trabalho conjunto, pontos de vistas distintos alinhados e parcerias estratégicas bem estruturadas, o que é mais uma característica das Cidades Inteligentes. Além da atenção ao uso das tecnologias, estas urbes estão avançando em temas como decisões transparentes na gestão fiscal, competitividade econômica, segurança cidadã, mobilidade, redução da vulnerabilidade climática, e respostas mais ágeis em situações de emergência, algumas das variáveis para um planejamento urbano sustentável de longo prazo.

Segundo a previsão divulgada pela encarregada nacional do Programa da Organização das Nações Unidas para os Assentamentos Humanos (ONU-Habitat) no Brasil, Rayne Ferretti, lembrou que o Brasil está localizado no continente mais urbanizado do mundo, a América Latina, e se configura atualmente como o país mais urbanizado da região. “A gente identifica algumas necessidades muito especiais para as cidades latino-americanas e caribenhas. A gente fala muito dos três 'R' do redesenvolvimento urbano, que seriam a Regeneração, a Renovação e Reabilitação das nossas cidades. A América Latina é, ao mesmo tempo, o continente mais urbanizado e também o mais desigual do mundo e a gente não pode fechar os olhos para isso”, explicou Rayne”.   

Esse processo de rápida urbanização tem efeitos positivos e negativos nas cidades, criando oportunidades e trazendo problemas, respectivamente. Isto implica em oportunidades econômicas, por exemplo, para área de comunicação e desafios para áreas de transporte, ambiental e saúde. Vale ressaltar que serviços críticos nas cidades, dos quais os cidadãos dependem, começam a ter custos crescentes nos segmentos de segurança, habitação e saúde. Além disso, observasse parcela significativa dos serviços de energia, transporte, água e saneamento estão ficando obsoletos, exigindo uma modernização dessa infraestrutura. Há ainda de se considerar que mais pessoas vivendo nas cidades, implicam em maior poluição, afetando o ambiente e, consequentemente, a saúde das pessoas.

O uso das TIC’s tem sido empregado para prover suporte à infraestruturas nas áreas de educação, transporte, energia e saúde, dentre outros, resultando num uso inteligente e eficiente dos recursos. Exemplo disso compreende a nova geração de tecnologias de software, hardware e redes que provê os sistemas de TI com acesso em tempo real a bases de dados e recursos avançados de mineração e análise (de dados) para tornar os serviços públicos eficientes, para auxiliar governantes a tomarem decisões, além de permitir a escolha de ações que otimizarão resultados em processos eficazes e eficientes. 

A reengenharia perfeitamente conectada às inovações tecnológicas permitirá infraestruturas urbanas baseadas na convergência dos mundos analógico e físico com o mundo digital.

Mas por que fazer isso? Como as cidades são polos econômicos que indiscutivelmente começarão a competir entre elas pela atração de mais negócios para fazer crescer sua economia, para atrair talentos e negócios é imprescindível uma infraestrutura de qualidade, que possibilite uma mobilidade urbana segura e adequada, que ofereça serviços de saúde e educação de bom nível e que crie opções de lazer. Em resumo, que ofereça qualidade de vida. As cidades deverão ser gerenciadas como empresas, visando o crescimento econômico, mas aliando este crescimento à sustentabilidade e qualidade de vida. A atratividade baseada única e exclusivamente em isenção de impostos e doação de terrenos para indústrias está se esgotando rapidamente.

Portanto, para exercerem seu papel de “motores da economia”, a maioria das cidades deve assumir atitudes proativas e holísticas de melhoria de suas propostas de qualidade de vida para seus cidadãos, assim como redesenhar os modelos obsoletos de gestão e processos de governança que, na maioria das vezes, não se alinham mais com a complexa sociedade em que vivemos. E é preciso reconhecer o papel fundamental que as tecnologias podem assumir nos seus projetos de urbanização sustentável. 

AS “BASES” DA SMART CITY

Independente da aplicação, uma solução pra criar Smart Cities envolve processos, tecnologias e pessoas.

Do ponto de vista tecnológico, ela tem invariavelmente precisa ter no mínimo quatro componentes básicos.

Conclusões e Perspectivas

O conceito de Smart Cities e sua aplicação avançam desde o século passado e ao longo desse período de mais de 20 anos evoluiu não só no tipo de oferta de tecnologia e aplicações como também mudou de mãos no que diz respeito à iniciativa de implementação. 

O pesquisador norte-americano Boyd Cohen, doutor em estratégia urbana, descreve a evolução do engajamento das cidades no conceito como sendo um processo em três fases: Cohen batiza a primeira onda como a das Smart Cities 1.0. Ela se caracteriza por projetos oferecidos pelos fornecedores de tecnologia aos gestores municipais que não estavam completamente preparados para entender todas as implicações das soluções tecnológicas na cidade ou na qualidade de vida dos cidadãos.

A segunda onda, das Smart Cities 2.0, é marcada pela iniciativa da municipalidade prefeitos e administradores inovadores que enxergam o potencial da tecnologia e conseguem definir projetos visando soluções tecnológicas que permitem melhorar a qualidade de vida na cidade. É esta fase em que estamos agora onde prefeitos querem que suas cidades sejam inteligentes e precisam de ajuda (conhecimento, apoio técnico, financeiro, entre outros) para colocarem em prática esta transformação.

A terceira onda, a das Smart Cities 3.0, tem como elemento diferenciador o fato de que os cidadãos atuam como participantes ativos do processo, ajudando a desenhar a próxima geração de Cidades Inteligentes e mais sustentáveis. Entre os exemplos Cohen cita a cidade de Vancouver, no Canadá, que envolveu 30 mil cidadãos na co-criação do plano de ação Vancouver Greenest City 2020; e a cidade de Viena, na Áustria, que incluiu cidadãos como investidores em plantas de geração de energia solar para atingir a meta de energia renovável para a cidade em 2050. Um elemento importante sobre Smart Cities é que não há uma solução única para todas, já que cada cidade é única em suas características culturais, econômicas, políticas, territoriais e ambientais. Mas o cenário nunca foi tão fértil de exemplos, de ferramentas e de fontes de recursos financeiros e de informação para que os gestores municipais possam buscar idéias e criar seu próprio projeto. Com uma vantagem: eles contam com os cidadãos a seu favor.

É importante lembrar as vantagens de mover a cidade do modelo de gestão tradicional para o modelo de gestão inteligente. Os vários exemplos citados neste documento e os inúmeros outros casos de sucesso ao redor do mundo demonstram melhorias concretas para problemas enfrentados pelos gestores públicos:

=> Na gestão inteligente, aumenta a capacidade de planejar e antecipar necessidades; as ações passam a ser coordenadas e integradas; os recursos são compartilhados; os investimentos podem ser escaláveis e a economia de custos é aproveitada por todos;

=> Na infraestrutura urbana otimizada com tecnologia de ponta, o nível de serviço oferecido para a população melhora consideravelmente, com economia de recursos financeiros e humanos; mais e ciência, mais segurança, mais mobilidade, mais automatização e mais agilidade. O acompanhamento das condições do ambiente e dos problemas em tempo real permite agir prontamente nas soluções ou evitar crises antecipando cenários;

O engajamento dos cidadãos aumenta ao se beneficiar de uma plataforma online única e singular. É mais fácil e mais rápido encontrar e acessar serviços; participar das iniciativas da cidade; comunicar-se e receber informação do governo e seus departamentos; contribuir para a gestão urbana.

A política de dados abertos (Open Data) traz consigo transparência e aumento de confiança nos gestores. Sistemas de monitoramento de dados e canais de comunicação interdepartamental eliminam os antigos silos e substituem a desinformação e duplicidade pela integração entre equipes e pelo uso inteligente e compartilhado de dados, recursos humanos, recursos tecnológicos e financeiros. Os resultados da gestão pública melhoram e os custos se reduzem.

Como visto neste documento, o rápido crescimento urbano, muitas vezes de forma descontrolada, gera desafios imensos. Aliás, o século XXI será um período extremamente desafiador, haja vista que o fenômeno do crescimento provavelmente não será contido. A isso se soma a questão do aquecimento global, a superpopulação e a provável escassez de água potável. No mundo em desenvolvimento, dadas as carências de infraestrutura e a particular vulnerabilidade de partes da população, a atenção e esforços devem ser dobrados. As cidades da América Latina e do Caribe estão nesse grupo, e, portanto enfrentam grandes desafios. Contudo, em razão de seu relativo desenvolvimento econômico das últimas décadas, possuem condições para melhorar sua gestão e assim, melhorar a vida das pessoas. 

O modelo de gestão de Cidades Inteligentes encaixa-se perfeitamente nessa filosofia, sendo um aliado que não deve ser esquecido. As cidades, para enfrentar o desafio de se tornarem mais humanas, precisam conciliar seu crescimento, redesenhando-se a si mesmas, criando ambientes mais seguros, sustentáveis e melhores para se viver. Não apenas a tecnologia tem um papel fundamental neste contexto, mas também o cidadão se torna o centro das atenções, uma vez que já estamos falando em Sociedade 5.0. É essencial criar uma relação entre os elementos tradicionais que compõem uma cidade e as novas tecnologias.

Redesenhar as cidades para que elas se tornem mais inteligentes significa aglutinar esforços e conhecimentos diversos como arquitetura, planejamento urbano, engenharia, Tecnologias da Informação da Comunicação, meio ambiente, entre outros no sentido de conectar a infraestrutura de conectividade com o mundo das tecnologias embarcadas em objetos como câmeras de monitoramento, veículos, semáforos, mobiliário urbano. Tudo isso sem perder de vista os aspectos analógicos que compõem o espaço urbano e a interação que o Cidadão terá dentro desse contexto.

A tecnologia digital não deve ser vista como um fim, mas como um meio que permite transformar a infraestrutura tradicional da cidade em um ecossistema vivo e sustentável que leva benefícios para as pessoas e as empresas que ali vivem e trabalham 

Com esse propósito, a tecnologia não pode ser entendida como um fim, mas um meio para a sustentabilidade. Não basta apenas investir em sistemas inteligentes, centros de operações e aplicativos. As soluções inteligentes para as cidades devem partir de análises e proposições integradas para um planejamento que considere questões de governança e economia. Elas devem enfocar aspectos que resultem em melhorias das condições sociais e econômicas, bem como na oferta de infraestrutura e de serviços prestados pelos governos locais com foco no cidadão. 

Construir Cidades Inteligentessignifica juntar esforços e aproveitar o que temos de melhor, com vistas a transpor desafios e melhorar a vida das pessoas. Diante dos desafios apresentados atualmente e dos projetados para o futuro próximo, transformar modelos de gestão tradicionais em modelos de Cidades Inteligentes não representa apenas uma oportunidade, é um imperativo. Nesse processo, pessoas, governos, iniciativa privada e sociedade civil devem todas participar. E a tecnologia, hoje tão presente na vida dos cidadãos, também é parte disso. Com sua abrangência, capacidade de diminuir distâncias, organizar informações e melhorar respostas tanto no nível dos indivíduos quanto no nível da coletividade, a tecnologia não pode ser deixada de lado ao pensar o futuro das cidades.

Felizmente, hoje na América Latina já reunimos as condições para dar passos sólidos nesse sentido. Sua continuidade depende do esforço de todos, e os governos locais tem papel fundamental na indução desses processos. 

Até o próximo artigo.

Fonte: LinkedIn