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30 DE DEZ DE 2017

Democracia em Rede

Acho que todos concordam que caminhamos rumo a um novo modelo de Estado e de sociedade. É preciso um debate sobre a democracia nos dias atuais.

2050 ENSAIO Democracia em Rede ROGER MEDKE · 30 DE DEZ DE 2017

Acho que todos concordam que caminhamos rumo a um novo modelo de Estado e de sociedade. É preciso um debate sobre a democracia nos dias atuais.

Vamos pensar assim: somos cidadãos do século XXI, fazendo o melhor que podemos para interagirmos com instituições criadas no século XIX, baseadas em tecnologia da informação do século XV.

Analisando algumas das características desse sistema. Primeiro, foi projetado para uma tecnologia da informação que tem mais de 500 anos. O melhor sistema possível para o fato de ser criado para isso em que a minoria toma decisões diariamente em nome da maioria. E essa maioria vota uma vez a cada quatro anos. Em segundo lugar, os custos de participação no sistema são incrivelmente altos. É necessário ter uma boa fortuna e influência, ou devotar sua vida inteira à política. É necessário tornar-se um membro de partido e, lentamente, começar a subir, até que, talvez um dia, você consiga sentar-se à mesa em que são tomadas as decisões. Por último, mas não menos importante, uma linguagem do sistema que é incrivelmente obscura. É feita para juristas, por juristas, e ninguém além deles consegue entendê-la. Então, é um sistema que escolhemos nossos representantes, mas somos deixados completamente alheios a como estes tomam suas decisões, podemos dizer que em todas as esferas públicas, sejam elas Federais, Estaduais e Municipais. Então, numa era em que uma nova tecnologia da informação nos permite participar de forma global em qualquer debate e reivindicação, nossos obstáculos de informação são totalmente minimizados, e podemos, mais do que nunca, expressar nossos desejos e nossas preocupações através da rede.

Nosso sistema político contínuo até mesmo de 200 anos atrás, e espera-se que fiquemos satisfeitos por sermos simplesmente ouvintes passivos de um monólogo. Então, realmente não é surpresa que esse tipo de sistema produz apenas dois tipos de resultados: silêncio ou barulho. Silêncio no sentido de on-line mas não nos engajamos, simplesmente não querendo participar, mas há um senso comum, do qual realmente não gosto, a idéia de que somos naturais e apáticos, que evitamos o engajamento e parece estarmos querendo fugir dos problemas ao invés de nos unirmos em prol de buscarmos a solução. Outro sim, muitos usam a rede para criticar de maneira excessiva mas sem objetivo em comum, gerando assim mais turbulência sem objetividade. Somos tão somente culpados por não nos empolgarmos em participar fisicamente bem como nos organizarmos em prol de reivindicações em sessões públicas, seja ela em nossa comunidade, bairro ou cidade.

Mas, com certeza é inevitável o conflito entre um sistema que não é mais representativo, nem tem mais qualquer capacidade de diálogo, e cidadãos que estão cada vez mais acostumados a representarem-se a si mesmos. Brasil, Chile, Argentina, México, Itália, França, Espanha, Estados Unidos, Reino Unido, Estônia, todos são democracias. Seus cidadãos têm acesso às urnas de votação, mas eles ainda estão à vontade para sair às ruas para que sejam ouvidos. Pra mim, parece que o slogan do século XVIII, que foi uma base de formação de nossas democracias modernas, "tributação sem representação", hoje pode ser atualizado para "nenhuma representação sem debate". Queremos ser ouvidos e quem sabe um lugar à mesa. E com razão. Mas para sermos parte do debate, precisamos saber o que fazer e o que queremos, porque uma ação política é capaz de passar da agitação para construção. A minha geração tem se saído incrivelmente bem em usar as novas redes e tecnologias para organizar protestos, os quais foram bem sucedidos na imposição de agendas, na modificação de legislação excepcional, e até a supressão de governos autoritários. E devemos estar imensamente orgulhosos disso, porém, também devemos admitir que não nos saímos bem em usar as redes e tecnologias na articulação eficaz de uma alternativa ao que é visto, encontrando o consenso e construindo alianças necessárias para fazer isso acontecer. O risco que enfrentamos é que podemos criar enormes vácuos de poder que, com muita rapidez, seja completado por poderes de fato, como o militar, ou por grupos altamente motivados e já organizados, que geralmente se encontram nos extremos ou no próprio poder.

As nossas democracias não se resumem a uma vez a cada quatro anos, mas também não são tratados com a capacidade de sair em milhões pelas ruas. Então, é um problema que exige um novo ecosistema: a internet é a nova imprensa, e aqui cabem algumas perguntas.

O que é uma democracia para uma era da internet?

Que instituições queremos criar para uma sociedade do século XXI?

Fonte: LinkedIn