11 DE DEZ DE 2017
e-Estônia: um país inteiro como exemplo para as cidades inteligentes
Imagine que, ao invés de acordar cedo para evitar filas nas urnas em um domingo de eleição, você levanta da cama, faz um café e, ainda de pijama, vota nos seus candidatos pela internet. No Brasil, isso ainda está longe de acontecer, mesmo q
O que um pequeno país da Europa pode ensinar para as cidades ainda pouco inteligentes do resto do mundo? Conheça o e-Estônia, projeto que transformou o país nórdico em uma nação que vai além das fronteiras físicas com seus serviços eletrônicos
Imagine que, ao invés de acordar cedo para evitar filas nas urnas em um domingo de eleição, você levanta da cama, faz um café e, ainda de pijama, vota nos seus candidatos pela internet. No Brasil, isso ainda está longe de acontecer, mesmo que tenhamos a urna eletrônica. Porém, na Estônia, votar online é só uma das inúmeras possibilidades que os cidadãos possuem. Os projetos que conectam o país nórdico são tão antigos que o governo local já criou um nome engraçadinho para esse movimento: e-Estônia. Dentro dessa iniciativa de facilitar a interação dos cidadãos com o Estado, o país já criou outros serviços eletrônicos: o pagamento de impostos é feito online (e-Tax Board), assim como a criação de uma empresa (e-Business), a abertura de uma conta em banco ( e-Banking). Há também plataformas online que conectam escolas, universidades e até uma escola de governança.
O projeto da Estônia de se tornar um estado eletrônico vai além. Em 2014, o governo local lançou um projeto de e-residência que transcende a ideia de país enquanto um território, tornando a Estônia um país online onde as fronteiras físicas já não importam tanto. Com um cartão de e-residente, qualquer pessoa tem acesso aos serviços eletrônicos estatais. O cartão, em conjunto com um código PIN separado, permite que e-residentes assinem digitalmente documentos pela internet. Além disso, a carteira de identidade também é um cartão digital que serve para diversos outros fins que vão desde comprar remédios até registrar novos negócios.
A relação da Estônia com a tecnologia começou ainda na década de 1990, logo após o país restaurar sua independência como nação soberana, derrotando a ocupação soviética em 1991. Na época, o primeiro-ministro Mart Laar ajudou a empurrar o país para a tecnologia: em 1998 todas as escolas do pequeno país já tinham acesso à internet. Em 2000, o governo declarou acesso à internet como um direito humano, o que levou conexão até as zonas rurais. Por lá, programação é ensinado desde os sete anos. Não por acaso aos dez os jovens já estão criando os seus primeiros games. Os pais também participam da rotina escolar dos filhos pela internet: acessam suas notas, listas de presença e acompanham a entrega da lição de casa, tudo pela web. Atualmente, um dos grandes nomes por trás do e-Estônia é Toomas Hendrik, o atual presidente e um dos grandes entusiastas das novas tecnologias. Enquanto outros países vêem a automação como um desafio, pois pode refletir na economia, mudando a lógica de alguns empregos, Hendrik vê as máquinas como uma solução para um país pequeno, com população de 1,4 milhão de pessoas, que precisa competir com os grandes no mercado global.
É claro que tornar um país conectado, por menor que ele seja, não é assim tão simples. Afora questões de infraestrutura de rede, ou seja, de todo o território e todo o cidadão ter uma conexão com a internet, há preocupações com a privacidade e a segurança dos dados dos cidadãos. Além dos riscos de ataque, é necessário encontrar uma forma de armazenar tantas informações, especialmente agora que o país está expandindo para além das suas fronteiras. Não são dados de cadastro, como e-mail e telefone, mas informações bancárias, o currículo escolar e acadêmico e até impostos pagos ou não.
Segundo a The Economist, a Estônia já está trabalhando em um projeto de continuidade digital que busca garantir que, caso sabotado, o governo continuará a funcionar por meio da internet, prestando serviços e permitindo pagamentos. As aulas serão valiosos para qualquer organização preocupada com a recuperação de desastres. Há, ainda, questões ligadas á legislação. Na União Europeia, e a Estônia é parte do bloco econômico, as leis sobre dados pessoais são rigorosos. Os usuários precisam ter certeza de que suas informações estarão guardados adequadamente, especialmente se esses servidores estiverem fora do país. Hoje a discussão é ao redor da ideia de criar embaixadas digitais, computadores em missão diplomática no exterior cujo objetivo é garantir que a e-Estônia continuará funcionando.
Tecnologia como vetor das cidades inteligentes
Paula Faria, diretora da Sator e idealizadora do projeto Connect Smart Cities, acredita que a tecnologia é um vetor importante para as cidades inteligentes, um catalisador, mas que não é o único. O que a Estônia faz é uma das formas de tornar o país inteligente, pois ao automatizar o acesso do cidadão às informações, o governo não apenas torna o acesso digital, mas também único. Para as prefeituras esse tipo de iniciativa pois colabora nas questões de transparência e governança, eixos que são tão importantes para as cidades inteligentes quanto a tecnologia.
“Uma cidade inteligente é aquela que trabalha de forma a entender as necessidades da cidades e dos cidadãos, e trabalha conectado com eles. A tecnologia é um vetor, ela catalisa o desenvolvimento, mas essa conexão com o cidadão, ter um processo participativo, de participação social, é fundamental para que a prefeitura consiga dar resposta para a expectativa do cidadão, senão a tecnologia é usada de forma isolada, e não necessariamente está alinhada com o que o cidadão espera”, explica Paula. A tecnologia é importante, mas só ela não transforma uma cidade em uma cidade inteligente de acordo com a especialista.
Para além das questões de privacidade e segurança dos dados, que é uma preocupação das cidades que migram de um processo analógico para um digital, Paula aponta como um desafio brasileiro algo que é muito maior, uma mudança de paradigma. “As tecnologias trazem uma questão muito importante que é a transparência, pois elas trazem a proposta de acesso à informação, clareza nos processos. Um dos principais desafios é essa mudança de pensamento, ainda temos um padrão antigo e burocrático. Mais que a implementação e a solução, as novas tecnologias exigem uma mudança de paradigma dos nossos governantes, e nos como sociedade civil temos que pressionar os governantes para que eles encontrem uma forma de evoluirmos, de mudarmos de patamar. Mais do que qualquer outra coisa que as tecnologias possam trazer de comodidade, de benefício para as pessoas, a transparência é o mais importante que as inovações podem nos trazer”, acredita Paula.
A especialista alerta ainda que uma cidade não precisa nascer inteligente, ela pode se tornar inteligente ao longo dos anos. Grande parte do que é uma cidade inteligente passa por questões de qualidade vida, sustentabilidade e economia. É isso que as pessoas procuram, mesmo que não coloque isso nos mesmos termos. Ainda que no Brasil as discussões ao redor das cidades inteligentes esteja no início, há formas de acelerar esse processo se as ações forem pensadas de uma forma coordenada.
Paula exemplifica com a atualização da iluminação pública nas cidades, algo que é muito recorrente. Ao optar pelas lâmpadas LED, que gastam menos energia e, logo, ajudam o governo a economizar, a prefeitura pode aproveitar esse movimento para incluir câmeras de segurança, por exemplo. “A prefeitura pode estudar os pontos cegos e colocar mais iluminação e câmera nesses locais, implementar também sensores de estacionamento proibido e câmeras de trânsito para otimizar o trabalho dos fiscais e também a vida cotidiana do cidadão. Colocar uma iluminação mais barata e não pensar nas pessoas é o problema. É preciso otimizar os recursos, é possível ir implementando essa lógica mesmo em uma cidade que é caótica”.
Créditos: Emily Canto Nunes Jornalista Twitter
Fonte: LinkedIn