12 DE FEV DE 2020
ESTUDOS DE CASOS INSPIRADORES SOBRE TRANSFORMAÇÃO DIGITAL
Parece não haver mais dúvidas quanto aos benefícios, as oportunidades e ameaças que a transformação digital pode proporcionar. É bem verdade que o governo brasileiro está atrasado quando comparado a outros países, mas, felizmente, algumas e
Parece não haver mais dúvidas quanto aos benefícios, as oportunidades e ameaças que a transformação digital pode proporcionar. É bem verdade que o governo brasileiro está atrasado quando comparado a outros países, mas, felizmente, algumas empresas já começaram as suas iniciativas de transformação digital. Os estágios da transformação digital nas empresas brasileiras neste momento são bem diferentes, enquanto alguns setores apresentam um avanço maior, outros engatinham, e muitos ainda nem se deram conta.
Analisei três pesquisas de empresas distintas como forma de mapear e entender o desempenho do setor privado no Brasil de 2017 a 2019. A iniciativa da SAP (2017) chegou a números impressionantes e, na minha opinião, uma das mais bem embasadas e completas sobre o assunto, mostrando as expectativas de crescimento das organizações brasileiras em que 56% das empresas pretendem alcançar um aumento de receita de 5,1% a 10% após a transformação digital, e 51% delas pretendem acelerar o mercado. Já quanto às ferramentas que estão sendo mais desenvolvidas atualmente no mercado brasileiro, são Big Data e Analytics (63%), plataformas de segurança (59%), mobile (51%), cloud computing (50%) e IoT (45%). Entretanto, até 2020 o cenário mudará bastante com relação à prioridade de investimento, sendo Big Data e Analytics (78%), Cloud computing (61%), plataformas de segurança (58%), IoT (53%), Mobile (44%) e Machine learning/IA (29%). Porém, mostra que os maiores desafios às iniciativas de transformação digital no Brasil são a falta de liderança (24%), falta de gerenciamento (19%) e de habilidades na força de trabalho (16%).
Já a IDC (2018) apontou que muitas empresas que atuam no Brasil ainda não acordaram para a importância da digitalização dos negócios. Ao entrevistarem mais de 100 grandes companhias, praticamente um quarto das companhias (24,7%) não acha que a transformação digital seja relevante, enquanto apenas 4% estão plenamente cientes da importância do assunto e o tratam como grande prioridade. As empresas consultadas foram todas de grande porte, com pelo menos mil funcionários e distribuição setorial e regional semelhantes à do PIB brasileiro. E, ainda, somente 4% das empresas têm a inovação como prioridade absoluta, embora 3/4 delas se encontrem nos três níveis superiores – na prática, a história é outra. Menos da metade está de fato trabalhando, desenvolvendo e realizando a transformação digital em qualquer medida. Uma boa parte (42%) quer iniciar o processo nos próximos anos, entre 2019 e 2021, 10% das empresas não têm qualquer plano de transformar digitalmente seus negócios, e mais da metade diz que vai usar apenas recursos próprios, o que é preocupante, dado que, em épocas de dificuldades econômicas como a atual, as equipes estão mais enxutas. Apenas 20% dizem que vão contratar uma empresa especializada em tecnologia, e 14% pretendem trazer uma consultoria de negócios para esse processo.
E na mais recente (2019), realizada pela Softex, apenas 1 em cada 4 empresas do Brasil está pronta para a transformação digital. Dentre as empresas entrevistadas para o estudo, 73% admitiram estar iniciando o processo de transformação digital e 56% planejavam utilizar recursos internos para liderar a jornada de transformação digital. A pesquisa também indicava que para 46% a área de TI é líder desse processo. Em relação à motivação para a adoção da transformação digital, 44% admitiram considerá-la para manter a sua competitividade, 38% para manterem-se na liderança nesta era hiperdigital, 6,9% por pressão de clientes e consumidores, 1% para otimizar os processos e a qualidade da prestação de serviços e 9% não sabiam ou não informaram o motivador. A pesquisa foi realizada com CIOs de 101 empresas de todas as regiões do país.
Quanto à intenção de adoção de tecnologias emergentes no curto prazo, em um período de três a doze meses, os destaques ficaram por conta de IoT (23,8%), computação em nuvem e Blockchain, ambas com 19,9%. Ao se ampliar o prazo de previsão de adoção para um ano e meio até três anos, surge com força o emprego da IA e da aprendizagem de máquina com 34,7%. Uma constatação preocupante do levantamento é a de que apenas 4,6% das empresas consultadas entende inovação como algo importante, o que explica o baixíssimo nível de conscientização da oportunidade presente em uma startup, quando 71,3% das empresas ouvidas afirmou não manter nenhuma relação com uma empresa nascente de base tecnológica. Essa é uma tendência que pode e deve ser revertida ao meu ver, pois a transformação digital abre um amplo leque de oportunidades para as empresas brasileiras de tecnologia, em particular, para as startups que já nascem com um mindset inovador e podem atuar como um dos grandes drivers para a transformação digital.
Ao concluir sobre esses três cenários, percebo de maneira holística um ambiente preocupante, uma vez que poucos gestores estão conscientes da importância da transformação digital e da sua urgência, mas vejo que os fatores dessa cegueira empresarial são impulsionadas pelo baixo conhecimento em inovação, baixo nível de maturidade digital e o principal, pelo velho jeito apegado de fazer e pensar que herdamos do século passado, a cultura da revolução industrial.
Por outro lado, uma grande parte dos CEOs e diretores de muitas empresas globais já entenderam a importância da transformação digital. Lançaram planos para mudar o modelo de negócio, implementar metodologias ágeis, autonomia distribuída fornecer uma melhor experiência ao cliente. Porém, vimos que o lado do empresariamento que toca o negócio atual ao se deparar com a inovação requerendo investimentos altos para testar um produto novo, a disponibilidade começa a mudar, existe uma distância enorme para o “está aprovado!”, especialmente quando a decisão envolve colocar a mão no bolso da empresa e tomar risco.
A maioria dos CEOs não consegue dar esse salto, evitando impactar o Ebitda e comprometer a distribuição de dividendos porque ainda seguem a lógica do mercado financeiro, criada no século passado, pois a regra do modelo industrial, crescer era construir ativos físicos. Diminuir custos para aumentar margens. Construir para ganhar eficiência operacional. Produzir mais hoje para ganhar muito amanhã. Acionistas compraram ações acreditando em certas premissas. Conselheiros assumiram para garantir os dividendos. E assim o ciclo se formou. O problema é que essa lógica não se sustenta mais. As empresas realmente inovadoras já estão provando que o caminho é outro.
Microsoft
A Microsoft quase se perdeu no começo deste século após o fracasso da estratégia na frente ao mobile, o Android pertenceria à mesma dona do Windows, onde tudo indicaria que muitos tivessem um celular da empresa de Bill Gates, mas ninguém tem. Esse movimento errado poderia ter custado caro e levado ao fim de uma longa e lucrativa história, mas a empresa conseguiu se reinventar sob a liderança de Satya Nadella. Em 2014 ao assumir a empresa, ele sacrificou o lucro no curto prazo, mudou o sistema de bonificações dos vendedores e traçou a estratégia para ganhar espaço na nuvem. Satya, um CEO que veio da área de produtos e não de vendas, já sabia que o negócio era fazer venda consultiva, feita sob medida, próxima ao cliente para garantir receita recorrente. E foi assim que o Pacote Office passou a ser vendido por assinatura, é devido a essa estratégia atualmente a única empresa do mundo a valer US $ 1 trilhão. Uma companhia cujo produto você provavelmente tem instalado no seu computador.
Adobe
Em 2012 a Adobe decidiu abrir mão dos picos de receita durante três anos ao perceber que não viveria muito tempo vendendo versões de Photoshop, InDesign e Acrobat a cada 18 meses. Em um momento no qual pouca gente falava em “economia de assinaturas”, a Adobe decidiu transformar seu modelo de caixinha de software em um de assinaturas mensais na nuvem. No início dessa transição, ela publicou uma carta aos seus clientes, sendo transparente sobre as mudanças. A liderança sabia que sem a adesão daqueles usuários fiéis dificilmente teria êxito. Também informou seus stakeholders, enfrentando a desconfiança de investidores, foi um período bem difícil para a empresa, que logo de início recebeu uma petição com trinta mil assinaturas pedindo que abandonasse a transição. Em 2013, a receita da Adobe caiu 8%. No ano seguinte, ficou estável. Apesar disso, a liderança manteve a estratégia de reinvestir o orçamento em marketing, abrindo novos canais, frentes de atuação – como na área de vídeo – e fazendo ajustes, como as assinaturas mais baratas para os descontentes. Talvez a maior lição tenha sido a insistência na premissa de que você não pode simplesmente vender a mesma oferta de uma maneira diferente. Desde então, o valor de mercado da Adobe aumentou mais de 87% e a empresa se tornou referência no modelo de assinatura de nuvem.
Amazon
Na Amazon, Jeff Bezos reinveste todo o lucro na própria empresa há mais de uma década, uma política que causou arrepios nos acionistas, temerosos de perder seus dividendos, no entanto, desde 2008, a Amazon pagou apenas US $ 1,4 bilhão em impostos, já que o lucro final é pequeno – o Walmart a título de comparação, pagou US $ 64 bilhões. Nos últimos cinco anos, as ações da gigante do e-commerce saíram de cerca de US $ 300 para quase US $ 1.800.
Disney (EUA)
Quando a taxa de satisfação dos usuários estava em declínio, a Disney investiu bilhões de dólares para melhorar a experiência do cliente. Para tanto, foi lançado o MyMagic+, um pacote de produtos composto por um site, um aplicativo móvel e uma pulseira. Através do site e do aplicativo móvel, é possível reservar e planejar o itinerário com antecedência na Disney. Garantida a reserva, os clientes recebem os MagicBands, que são as pulseiras com chip de identificação, que servem como chave do quarto de hotel, bilhete de entrada, carteira e um FastPass. A pulseira permitiu rastrear e analisar o comportamento do consumidor para que a Disney crie uma experiência personalizada e perfeita para os seus clientes. Por exemplo, por meio da pulseira, os personagens da Disney vão saber se uma criança está fazendo aniversário e, assim, poderão fazer uma saudação diferenciada. Além disso, o dispositivo pode identificar se o cliente está enfrentando uma fila muito longa. Nesses casos, alguns personagens são enviados para entreter os usuários ou até mesmo encaminhá-los para uma atividade menos lotada. Hoje, 90% dos visitantes classificam a experiência como “muito boa” ou “excelente”.
Nespresso
Teve o desejo de sua transformação digital para conquistar novos clientes, obter uma compreensão mais profunda de seus clientes e gerenciar processos complexos de compra. Mas foi guiada pelo objetivo claro da empresa de fornecer aos clientes a experiência perfeita do café. As iniciativas da Nespresso são apoiadas por uma solução moderna de envolvimento do cliente baseada na nuvem com capacidade de rede. Sua solução em nuvem serve como uma plataforma de inovação com uma solução de vendas completa, capaz de lidar com todo o ciclo de compra, preços, cotações e pedidos. As iniciativas digitais da Nespresso provaram ser frutíferas, e seus benefícios incluem maior penetração em novos mercados, maiores vendas e adoção pelos usuários, melhor produtividade de vendas e melhor visibilidade em todo o ciclo de engajamento.
Airbus
A Airbus é uma divisão do Airbus Group que fabrica aeronaves civis, com sede em Blagnac, e emprega cerca de 63.000 pessoas em 16 locais diferentes. As receitas da Airbus aumentaram em 6,9%, de € 49 bilhões em 2011 para € 63 bilhões no ano até setembro de 2015, com as margens EBITDA aumentando em 1,3% durante o mesmo período de 6,3% para 7,6%. Em 2015, a Airbus usou mais de 1.000 peças impressas em 3D durante a construção do primeiro A350 XWB a ser entregue. O uso de peças impressas em 3D ajudou a Airbus a reduzir os prazos de produção, reduzir os requisitos de matéria-prima e aumentar a eficiência de suas aeronaves. A visão da Airbus de aplicar tecnologias inovadoras ao projeto e fabricação permitiu que eles usassem a impressão 3D para desenvolver peças de aeronaves melhoradas. Ela fez parcerias estratégicas com empresas que fornecem impressoras 3D como um serviço como Stratasys e Materialize, e montou uma “fábrica do futuro” em sua busca para explorar novas formas de fabricação. A impressão 3D ajudou a Airbus a alcançar uma mudança radical na redução de peso e na eficiência, produzindo peças para aeronaves que pesam de 30 a 55% a menos, enquanto reduzem as matérias-primas usadas em 90%. Em comparação com os métodos tradicionais, a impressão 3D diminuiu a energia total utilizada na produção em até 90%. A Airbus economizou, em média, 44 dias no lead time de fornecimento do suporte, os custos e o lead time de fornecimento nas ferramentas também caíram 70%, e as aeronaves são em média 6,4% mais eficientes em termos de combustível com a ajuda de peças impressas em 3D.
Rio Tinto
A Rio Tinto é uma das maiores empresas de mineração e metais, com receita de US $ 47 bilhões, possui mais de 66.000 funcionários em 40 países. Estabelecido em 2008, o programa “mina do futuro” da Rio Tinto visa equipar funcionários da linha de frente com ferramentas inteligentes que lhes permitam tomar decisões que melhorem o desempenho com base no conhecimento contextual. A Rio Tinto possui a maior frota de caminhões autônomos do mundo para fornecer cargas com mais eficiência, minimizando atrasos e uso de combustível. Os caminhões são controlados remotamente por operadores que exercem maior controle sobre seu ambiente e garantem maior segurança operacional. A Rio Tinto tem se concentrado na criação de um pipeline de inovações tecnológicas desde 2007 através de alianças com parceiros nos negócios, indústria, ciência e academia, por exemplo o IGAT - Imperial College London. A empresa estabeleceu um centro de operações onde, de um local, mais de 400 operadores analisam dados e sincronizam um sistema integrado em tempo real, gerenciando 15 minas, 31 pits, quatro terminais portuários e uma rede ferroviária de conexão de 1.600 km, levando a uma maior eficiência, confiabilidade e menor variabilidade. A Rio Tinto confia em pessoas e computadores trabalhando juntos, um aumentando o outro, em vez de ver humano e máquina como fontes de conhecimento mutuamente exclusivas. A Rio Tinto considera que a evolução tecnológica levará à substituição de alguns postos de trabalho, mas a criação de novas posições. Eles admitem que pessoas qualificadas sempre serão necessárias para supervisionar os sistemas autônomos, observando que a mudança tecnológica fornece aos funcionários a chance de desenvolver e usar melhor suas habilidades em novos ambientes de trabalho. A Rio Tinto capacita seus funcionários a operar de forma mais eficaz em solo, onde um software interpreta conjuntos de dados complexos e cria uma interface amigável. Visualização em 3D de uma mina que é fácil e rapidamente compreendida por controladores de poços, geólogos, equipes de perfuração, planejadores de minas e supervisores, permitindo que a empresa tome decisões informadas enquanto trabalha remotamente a partir das máquinas. A Rio Tinto teve como reduzir com segurança os custos de manutenção em cerca de US $ 200 milhões por ano entre 2015 e 2018.
Fonte: LinkedIn