24 DE SET DE 2026
IA: entre o alarmismo e a ingenuidade existe maturidade
Ontem, Yoshua Bengio , um dos nomes mais importantes da história da Inteligência Artificial, levou ao Conselho de Segurança da ONU uma mensagem bastante contundente: os riscos da IA seriam “reais e iminentes”.
Ontem, Yoshua Bengio, um dos nomes mais importantes da história da Inteligência Artificial, levou ao Conselho de Segurança da ONU uma mensagem bastante contundente: os riscos da IA seriam “reais e iminentes”.
Ele falou sobre uso malicioso, concentração de poder e até perda de controle sobre sistemas avançados. Defendeu auditorias independentes, reporte de incidentes e mecanismos de governança para a chamada Frontier AI.
Eu entendo o alerta.
Mas confesso que vejo parte dessa discussão com um pouco mais de pé no chão.
Porque existe uma diferença importante entre reconhecer riscos e transformar possibilidades em destinos inevitáveis.
E talvez seja justamente aí que esteja uma das discussões mais importantes sobre Inteligência Artificial neste momento.
O risco existe. Mas o futuro não está escrito.
Toda tecnologia suficientemente poderosa amplia possibilidades.
Para o bem e para o mal.
A energia nuclear pode iluminar uma cidade ou destruí-la.
A internet democratizou conhecimento e, ao mesmo tempo, criou novos espaços para crimes, manipulação e desinformação.
Com a IA não será diferente, alias não está sendo diferente.
Aliás, talvez seja ainda mais complexa porque estamos diante de uma tecnologia de propósito geral, capaz de ser aplicada em praticamente todos os setores da economia e em uma quantidade crescente de atividades humanas.
O problema, portanto, não é simplesmente aquilo que a IA pode fazer.
É aquilo que nós decidiremos fazer com ela.
E aqui está, para mim, a parte central da discussão.
Talvez ainda não (me coloco no circuito, e digo que) saibamos lidar plenamente com uma tecnologia dessa magnitude.
Como empresas.
Como governos.
Como profissionais.
Como indivíduos.
E, daqui para frente, até na relação com robôs e humanoides capazes de interagir diretamente com o mundo físico, também não temos respostas ainda.
Estamos construindo a estrada ao mesmo tempo em que aprendemos a dirigir.
Naturalmente haverá erros.
Naturalmente existirão riscos.
E naturalmente precisaremos criar regras.
Nosso maior gap talvez não seja tecnológico
A capacidade da Inteligência Artificial está avançando muito rapidamente.
Mas nossa cultura, nossas organizações e nossos mecanismos de governança não necessariamente avançam na mesma velocidade, ou se quer existem.
E aí mora uma parte importante do problema.
Vejo empresas implementando IA antes mesmo de discutir quem responde pelas decisões tomadas com seu auxílio.
Profissionais delegando raciocínio para algoritmos sem questionar as respostas.
Organizações preocupadas em comprar ferramentas antes de desenvolver fluência em IA.
O risco, muitas vezes, não começa na tecnologia.
Começa na ausência de maturidade para utilizá-la.
Por isso acredito que a discussão não deveria ser simplesmente:
“Até onde a IA poderá chegar?”
Talvez exista a reflexão anterior a fazermos:
“Até onde nós estamos preparados para acompanhá-la?”
Sam Altman, falando logo depois de Bengio na mesma reunião, colocou a questão de outra maneira: evitar tanto o otimismo cego quanto o chamado pessimismo e buscar um caminho em que humanos permaneçam no centro das decisões.
Esse ponto me parece fundamental.
Não precisamos escolher entre medo e deslumbramento
Há dois extremos perigosos nessa conversa.
De um lado, acreditar que a IA resolverá todos os nossos problemas.
Do outro, acreditar que inevitavelmente nos levará a uma catástrofe.
Eu prefiro um terceiro caminho.
Consciência.
Entender profundamente o que essa tecnologia é capaz de fazer.
Experimentar.
Criar repertório.
Estabelecer limites.
Construir governança.
Desenvolver sistemas seguros.
E, principalmente, manter seres humanos responsáveis pelas decisões que realmente importam.
Quanto maior a capacidade da tecnologia, maior precisa ser nossa capacidade de utilizá-la com discernimento - sabedoria.
É por isso que tenho defendido cada vez mais uma ideia:
IA não é sobre tecnologia. É sobre mentalidade.
Porque, no fim, a tecnologia por si só não define o resultado.
O que define é a forma como nós escolhemos utilizá-la.
Com ingenuidade, ela pode gerar dependência.
Com medo, pode gerar paralisia.
Com consciência, pode gerar transformação.
E é justamente por isso que precisamos falar de governança.
De conhecimento.
De responsabilidade.
De pensamento crítico.
E de pessoas preparadas para tomar boas decisões diante de uma tecnologia cada vez mais poderosa.
Bengio está certo ao colocar os riscos na mesa.
Precisamos falar sobre eles.
Mas talvez nossa missão não seja apenas impedir que a Inteligência Artificial saia do nosso controle.
Talvez seja também garantir que nós não percamos nossa capacidade de pensar, decidir e assumir responsabilidade diante dela.
Porque o maior desafio talvez não seja tornar as máquinas cada vez mais inteligentes.
Talvez seja garantir que nós, humanos, sejamos maduros o suficiente para conviver com essa inteligência.
O futuro da IA não será determinado apenas pela capacidade dos modelos.
Será determinado pela forma como empresas, líderes e pessoas escolherem utilizá-los.
E talvez essa seja a verdadeira transformação: não apenas tecnológica, mas de mentalidade.
Antes de perguntar qual IA sua empresa vai adotar, talvez valha fazer uma pergunta mais importante:
Sua organização está preparada para pensar, decidir e agir em um mundo cada vez mais mediado pela Inteligência Artificial?
Essa é uma conversa que precisa começar agora.
Fonte: LinkedIn