Artigos

1 DE JUN DE 2020

O que faz um Grande Líder?

O teórico da administração Simon Sinek sugere que um Grande Líder é alguém que faz com que seus liderados se sintam seguros, que os atrai para um círculo de confiança. Mas criar confiança e segurança - especialmente em uma economia desigual

2050 ENSAIO O que faz um Grande Líder? ROGER MEDKE · 1 DE JUN DE 2020

O teórico da administração Simon Sinek sugere que um Grande Líder é alguém que faz com que seus liderados se sintam seguros, que os atrai para um círculo de confiança. Mas criar confiança e segurança - especialmente em uma economia desigual - significa assumir grande responsabilidade.

Um homem chamado o capitão William Swenson que recebeu a medalha de honra do Congresso por suas ações de 8 setembro 2009, naquele dia uma coluna de tropas Americanas e Afegãs estava tentando atravessar um certo ponto no Afeganistão para ajudar a proteger um grupo de oficiais do governo Afegão, que se encontrariam com alguns anciões moradores locais. A coluna de tropas neste dia foi emboscada e cercada por três lados, dentre essas e muitas outras muitas coisas o capitão Swenson foi reconhecido por correr em meio ao fogo cruzado para resgatar feridos e retirar os mortos. Uma das pessoas que ele resgatou inclusive era um sargento, um de seus companheiros que estavam sendo levados para um helicóptero de evacuação médica.

O mais impressionante naquele dia é que, por mera coincidência um dos médicos do resgate tinha uma câmera GoPro acoplada no seu capacete e registrou toda cena. Ela mostra o capitão Swenson e seu companheiro trazendo um soldado que tinha sido baleado no pescoço e o levavam até o Helicóptero, e o vídeo mostra o capitão Swenson curvando-se e beijando-o antes de se virar para resgatar mais pessoas.

Simon Sinek ao ver isso pensou e disse a si mesmo: de onde vem pessoas assim? O que é isso? É uma emoção muito profunda, quando alguém faz isso. Havia amor lá, e continua refletir... porque eu não tenho pessoas assim com quem trabalhar?

No meio militar, eles dão medalhas a pessoas que se dispõem a se sacrificar pelo bem dos outros. Já nos negócios, concedemos bônus àqueles que desejam sacrificar os outros para que possamos ganhar, ou seja, fazemos o contrário!!! Em vendo isso novamente, pergunta-se ele: de onde essas pessoas vem? e a conclusão inicial de Sinek foi de que eram apenas pessoas melhores, por isso o exército os atraía. As pessoas melhores são atraídas a esse conceito de serviço. Mas absolutamente não é isso. Continua Sinek, dizendo que aprenderá que é o ambiente que faz isso dar certo, cada um de nós tem a capacidade de fazer essas coisas notáveis, e, principalmente, os outros tem essa capacidade também. Sinek teve a grande honra de conhecer alguns dos que podemos chamar de heróis, que colocaram em risco suas vidas para salvar outros. Todos para quem ele perguntou o "porque você faria isso"? "Porque você fez isso"? Todos eles disseram a mesma coisa: "Porque ele teria feito o mesmo por mim." 

Isso mostra um profundo sentimento de confiança e de cooperação. Então, quer dizer que confiança e cooperação são realmente importantes. O problema com o conceito de confiança e cooperação é que são sentimentos, não são instruções. Não podemos simplesmente dizer a alguém, “confia em mim,” e pronto. Não podemos simplesmente instruir duas pessoas a cooperarem, e pronto. Não é assim que funciona. É um sentimento. Então de onde vem esse sentimento?

Se voltarmos a 50 mil anos, na era paleolítica, aos primórdios do homo sapiens, o que encontraremos é um mundo cheio de perigos, várias forças fazendo de tudo para nos matar. "nada pessoal". Quer fosse o clima, a falta de recursos, talvez um tigre dente-de-sabre, todas essas coisas trabalhando para reduzir nossa expectativa de vida. Então, evoluímos e nos tornamos animais sociais, vivíamos e trabalhávamos juntos, o que Sinek chama de "Circulo da Segurança", dentro da tribo que considerávamos o nosso lugar. Quando realmente nós nos sentíamos seguros entre nós, a reação natural era de confiança e de cooperação. Existem benefícios claros nisso. Significa que posso adormecer à noite e confiar em alguém de minha tribo que vai estar alerta ao perigo. Porém, se não confiamos um no outro, se você não confiar no outro, significa que você não vai ficar alerta, e esse é um péssimo sistema de sobrevivência.

Os dias atuais funcionam da mesma forma. O mundo está cheio de perigos, coisas que tentam frustrar nossas vidas ou reduzir nosso sucesso, reduzir nossas oportunidades de sucesso, talvez os altos e baixos da economia, o fato agora da pandemia que nos assola, a incerteza dos mercados econômicos, de ações e a geopolítica global. E ainda, uma nova tecnologia que torna seu modelo de negócio obsoleto da dia pra noite, ou a concorrência cada vez maior disputando o mesmo cliente. Talvez competidores que as vezes tentam acabar com a sua empresa, que as vezes tentam tirar você do mercado, ou que no mínimo está se esforçando para neutralizar seu crescimento e roubar seu negócio.

Simplesmente não temos controle sobre essas forças. Elas são constantes, e digo agora que passam a ser perpétuas, o que significa que não irão desaparecer ou desacelerar, pelo contrário, o mundo está acontecendo cada vez mais global e exponencial. Porém, as únicas variáveis onde podemos atuar e encorajar são as condições dentro da organização, é onde a liderança importa, por que é o líder que impõe o ritmo. Quando um líder tomar uma decisão de colocar a segurança e as vidas de pessoas de dentro da organização em primeiro lugar, de sacrificar seus confortos e sacrificar os resultados tangíveis, para que as pessoas permaneçam, sintam-se seguras e como parte do grupo, coisas simplesmente extraordinárias acontecem.

Sinek conta que em uma viagem que fez de avião ele testemunhou um incidente em que o passageiro tentou embarcar antes do número do seu bilhete ser chamado, e viu o agente do portão tratar o homem como se tivesse violado a lei como um criminoso, gritou com ele, por tentar embarcar antes de sua vez. Então Sinek pediu ao agente: "Porque vocês nos tratam como Gado? Porque não nos tratam como seres humanos? E foi exatamente essa resposta que ele (o agente) deu a Sinek: senhor, se eu não seguir as regras, eu vou correr o risco de perder meu emprego. Analisando a resposta, o entendimento é que ele não se sentia seguro, que não confiava em seus líderes.

A razão pela qual pessoas gostam de voar mais com a Southwest Airlines nos EUA não é necessariamente por que ela contrata pessoas melhores, mas por que essas pessoas não temem seus líderes.

Vejam, se as condições tiverem erradas, somos forçados a gastar nosso tempo e energia para nos protegermos uns dos outros, é isso por natureza que enfraquece uma organização. Agora, quando nos sentimos seguros na empresa, naturalmente combinamos nossos talentos e nossas forças e trabalhamos sem parar para enfrentar os perigos de fora e aproveitar as oportunidades.

A melhorar lógica de um grande líder que podemos usar é a de um pai. Se pensar no que é ser um bom pai, o que ele faz? O que é ser um bom pai? Queremos dar oportunidade aos nossos filhos, educação, disciplina quando preciso, tudo para que possam crescer e alcançar mais do que nós mesmos conseguimos. Grandes líderes querem a mesma coisa. Querem dar oportunidade a o seu povo, educação, disciplina quando necessário, erguer sua autoconfiança, dar-lhes oportunidade de tentar e falhar, tudo para que possam ir mais longe do que jamais imaginávamos que poderíamos.

Charlie Kim, que é CEO de uma empresa de tecnologia chamada Next Jump na cidade de Nova Iorque, disse que se você passasse por dificuldades em sua família consideraria mandar embora um de seus filhos? Nunca faríamos isso!!! Então por que consideramos demitir pessoas dentro de nossas organizações? Charlie implementou uma política de emprego vitalício. Se você conseguir um emprego da Next Jump, você não pode ser demitido por questões de desempenho. Na verdade, se tiver problemas, eles vão lhe instruir e dar suporte, assim como faríamos com o filho, caso voltasse da escola com uma nota ruim. É totalmente o contrário.

Já não podemos falar o mesmo de grandes CEOs de bancos por exemplo, por isso, tantas pessoas tem ódio e raiva tão viscerais desses CEOs com seus salários desproporcionais e estruturas de bônus. Mas não são os números, e sim o fato de terem violado a definição de liderança. Eles violaram o já estabelecido contrato social. Sabemos que eles permitiram o sacrifício de seus empregados em prol de interesses individuais, ou pior, eles mesmos sacrificaram os seus empregados em prol de interesses próprios. Isso é o que nos ofende, não os números. Alguém ficaria ofendido se déssemos um bônus de 150 milhões de dólares a Mahatma Gandhi? Que tal um bônus de 250 milhões de dólares a Madre Teresa? Temos algum problema contra isso? Não mesmo, nenhum.

Grandes líderes nunca sacrificaram seu povo em prol dos números. Eles prefeririam sacrificar os números para salvar as pessoas. Bob Chapman administra uma grande no centro-oeste dos EUA chamada Barry-Wehmiller. Em 2008, ela sofreu muito com a recessão e perdeu 30% dos pedidos da noite para o dia. Em uma grande empresa, isso é um problema e tanto, e eles não podiam mais bancar seus funcionários. Precisavam economizar 10 milhões de dólares. Então, como tantas empresas fazem hoje, a diretoria se reuniu e discutiu demissões. Porém Bob não aceitou. Bob não acredita em “quantidade de cabeças". Ele acredita em “quantidade de corações”. E é muito mais difícil simplesmente reduzir o número de corações. Então, eles conceberam um modelo de plano de desligamento. Cada empregado, do secretário ao CEO, era obrigado a tirar quatro semanas de férias não remuneradas. Eles poderiam tirá-las quando quisessem, não tinham de tirar tudo de uma vez só. Contudo, o mais importante foi a forma como Bob anunciou o programa. Ele disse: “é melhor que todos sofremos um pouco do que um de nós tenha de sofrer muito. E a moral se elevou, eles pouparam 20 milhões de dólares, e, principalmente, como esperado, quando as pessoas se sentem seguras e protegidas pelo líder do grupo, a reação natural é confiar e cooperar. De forma espontânea e inesperada, as pessoas começaram a trocar entre si. Os que podiam arcar com mais trocavam com os que podiam menos. Algumas pessoas tiravam cinco semanas para que outros pudessem tirar só três.

Portanto, a liderança é uma escolha, conhecemos muitos CEOs com títulos e pessoas nos níveis mais altos de empresas que não chegam nem perto de serem líderes. Elas são autoridades e seus subordinados fazem o que esses CEOs pedem porque tem autoridade sobre eles, porém esses subordinados não as seguiram de jeito algum. Conhecemos também muitas pessoas que estão nas bases das empresas, que não tem autoridade e que são líderes natos, isso porque escolheram cuidar da pessoa à sua esquerda, e escolheram cuidar da pessoa a sua direita. Isso é um líder.

Houve uma história em que alguns soldados do exercito foram ao teatro e conforme os costumes militares, o Oficial comeu por último, ele deixou seus homens comerem primeiro e, quando os soldados acabaram a refeição não havia sobrado comida para o Oficial. Quando os soldados voltaram a campo, esses homens lhe trouxeram parte de suas comidas para que ele pudesse comer, porque é isso que acontece. São esses indivíduos que nós chamamos de líderes, porque eles vão à frente; porque eles se arriscam antes de qualquer outro; porque eles escolhem se sacrificar para que seu povo permaneça seguro e protegido e possam prosperar e, quando isso acontece, a resposta é natural, é de que seu povo irá se sacrificar por ele. Eles darão seu sangue, suor e lágrimas para seguir a visão para tomar vida e, quando lhes perguntar “por que fazem isso, dar seu sangue, suor e lágrimas por tal pessoa, eles sempre responderão o mesmo: porque ele faria o mesmo por mim".

E a pergunta que fica de reflexão é, não é nesse tipo de organização que todos nós gostaríamos de trabalhar? 

Fonte: Trechos retirados do TED TALKS com mais de 5.405.295 visualizações, publicado em 19 de maio de 2014 - Simon Sinek.

Fonte: LinkedIn