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14 DE SET DE 2021

O redesenho da globalização

Quando parte da China entrou em confinamento, matéria prima, peças e equipamentos desapareceram do mercado, a fragilidade das longas cadeias globais de suprimentos tornou-se evidente e mostrou que a globalização e o desenvolvimento dos veíc

2050 ENSAIO O redesenho daglobalização ROGER MEDKE · 14 DE SET DE 2021

Quando parte da China entrou em confinamento, matéria prima, peças e equipamentos desapareceram do mercado, a fragilidade das longas cadeias globais de suprimentos tornou-se evidente e mostrou que a globalização e o desenvolvimento dos veículos terão de ser redesenhados.

O ano de 2020, com a amplitude da pandemia da Covid-19, estará marcado na história de todos nós. Temos como desafio não apenas um exercício de revisão de nossas instituições, mas também, em especial, do modo em que vivemos em sociedade.

A globalização, com seu consequente trânsito intenso de itens e pessoas, é contraposta com o fechamento de fronteiras e com as (necessárias) políticas de isolamento e quarentena impostas pelos mais diversos países para conter a propagação do vírus.

Com isso, três comportamentos da economia mundial pós Covid-19 já podem ser antecipados:

• A elevação global de dívidas públicas e privadas;

• Aceleração da digitalização;

• Reversão parcial da globalização.

O primeiro resulta do papel do setor público como assegurador do bem-estar coletivo (principalmente mediante a catástrofes), políticas de governo a fim de achatar a curva de contágio e, por fim, o controle sobre o vírus – estas ações deixarão um legado maciço na dívida do setor público no mundo inteiro.

Com o menor nível de comércio, cai a arrecadação de impostos e são geradas maiores despesas nos âmbitos sociais e de saúde. No lado do setor privado, o endividamento ou postergação dos pagamentos serão o modo de sobreviver à súbita parada, se o resultado não for bancarrota ou fechamento.

Cortar gastos para conter o déficit fiscal será muito caro em termos de “capital” político, especialmente depois de uma crise que deixará mais acentuada e escancarada a desigualdade social e que ocorre depois de um longo período de restrição econômica e reconstrução em muitos países.

O segundo resultado da pandemia será a aceleração da digitalização em processos de produção e no provimento de serviços públicos e/ou privados. As tendências preexistentes com a introdução de novas tecnologias, que já reconfiguravam as cadeias de produção com maior evidência em economias mais desenvolvidas, ganharam força em âmbito global devido às medidas impostas ao combate à proliferação do vírus – políticas de isolamento e quarentena.

Os processos de digitalização que se concretizaram durante a pandemia e a integração dos locais de trabalho e residência tendem a permanecer, em grande escala, definitivamente, estendendo-se a áreas como educação.

Por fim, como terceiro impacto, provavelmente haverá um retrocesso em termos de capacidade integrada de produção além das fronteiras de cada nação, que marcaram a globalização e sofrem uma reversão, não só agora com a pandemia, mas desde a crise financeira global.

Em muitos casos, inclusive em equipamentos médicos e medicamentos, além de itens de alta tecnologia, a eficiência e redução de custos cederá prioridade à segurança contra os riscos de abrupta interrupção dos fluxos de fornecimento. Já se vê um papel principal dessa questão com a intensificação da disputa entre os Estados Unidos e China.

Estados Unidos, China, Alemanha, Japão, Coreia, entre outros, se engajaram numa renhida disputa pela liderança em novas tecnologias. Não é para menos, a 4ª revolução industrial vai redesenhar o mapa geoeconômico global; os modelos de negócio e as lideranças de mercado irão mudar. Está em jogo a posição competitiva de cada país.

Nos anos 90 a abertura comercial multilateral induziu a fragmentação geográfica da produção de várias cadeias de valor, com destaque para as indústrias de equipamentos de TI, componentes, bens de capital, automobilística. As empresas multinacionais dos países avançados terceirizaram a produção, principalmente para os tigres asiáticos (Taiwan, Coreia, China).

Essas grandes empresas foram se concentrando nos estágios nobres de design, P&D e marketing de seus produtos. Surgiram, no limite, as empresas fabless ou fablites, como a Apple e a Qualcomm, que contratam toda a manufatura de seus produtos a fornecedores asiáticos. Inicialmente os fornecedores asiáticos eram manufaturadores especializados, com salários e preços baixos e sem marcas próprias. Mas, com o passar do tempo, automatizaram processos, investiram muito em P&D, difundiram novas marcas nos mercados domésticos e partiram para disputar a liderança mundial com as grandes empresas ocidentais.

Pressionados pela forte ascensão da Coreia e da China, os países industriais avançados reagiram adotando estratégias de inovação mais arrojadas, ampliando seus dispêndios privados e públicos em ciência, tecnologia e inovação. Ganhou corpo nos últimos anos uma verdadeira corrida tecnológica entre os principais países industriais ocidentais e asiáticos.

Os Estados Unidos querem manter sua liderança em ciência e pretendem recuperar competitividade em manufatura avançada. Em 2017, seu dispêndio total em P&D somou US$ 533 bilhões (2,7% do PIB). O Japão visa alcançar gastos de US$ 202 bilhões em P&D, subindo de 3% para 4% do PIB, almejando uma sociedade superinteligente (Smart Society 5.0). A Alemanha investiu US$ 105 bilhões em 2017, concentrando seu foco na manufatura 4.0, integrada e inteligente. A Coreia planeja a automação avançada de todo seu sistema fabril.

A China dispendeu, em 2017, US$ 279 bilhões em P&D, equivalente a 2,5% do PIB. Este investimento vem crescendo firmemente e é necessário para chegar ao status de potência industrial intermediária em 2035 e alcançar a liderança tecnológica mundial em 2049. Sob a supervisão direta do presidente Xi Jinping, a estratégia da China é, sem dúvida, a mais ambiciosa.

Na abertura do 19º Congresso da Academia de Ciências, semana passada, o líder chinês sublinhou a necessidade de "promover uma integração profunda entre a internet, a big data e a inteligência artificial com a economia real, transformando os modelos de negócio da indústria chinesa em direção ao topo das cadeias globais de valor".

O presidente Xi exortou a academia e o governo a promoverem reformas para dinamizar o ecossistema de inovação formado por empresas, universidades e instituições de pesquisa. Defendeu esforços concertados para desenvolver rupturas tecnológicas inéditas. Assinalou que a China deve trilhar seu caminho com autonomia, mas deve fazê-lo em um ambiente aberto e integrado à comunidade científica e tecnológica global.

De fato, a China vem assumindo papel destacado em projetos internacionais de Big Science e participa de redes colaborativas de excelência em inteligência artificial, edição genômica e nanotecnologias. Combina objetivos nacionais de longo prazo com pragmatismo. A cooperação com empresas estrangeiras líderes, através de joint ventures, vem sendo incentivada, por exemplo, nas áreas de saúde (biofármacos e equipamentos médicos), circuitos integrados para computação de alta performance, baterias eficientes para veículos elétricos.

São crescentes os investimentos na formação de cientistas, engenheiros e matemáticos. Talentos estrangeiros, assim como emigrantes chineses que se destacam em pesquisas no exterior, são seduzidos a radicarem-se na China, com remuneração diferenciada e acesso a infraestrutura científica de ponta.

Graças à iniciativa da Confederação Nacional da Indústria (CNI) e Instituto Euvaldo Lodi (IEL), o projeto Indústria-2027, inspirado pela Mobilização Empresarial pela Inovação (MEI), permitiu a pesquisadores dos Institutos de Economia da UFRJ e da Unicamp mapear as estratégias nacionais de inovação. Uma equipe de 75 especialistas avaliou os impactos potenciais das novas tecnologias, identificando riscos e oportunidades para a indústria brasileira.

As análises indicam que, até 2027, todos os sistemas industriais brasileiros enfrentarão riscos disruptivos. Uma pesquisa de campo mostrou que a adoção de processos digitais de última geração corresponde hoje a um percentual muito pequeno. Não obstante, há uma parcela expressiva da indústria - de 60% - que pretende migrar para gerações mais avançadas nos próximos 10 anos. Há oportunidades interessantes a serem capturadas. Permanece, porém, o desafio de modernização da parcela de 40% que tem dificuldades para avançar, especialmente as MPE.

O Brasil não dispõe de uma estratégia nacional de inovação de longo prazo. O nosso sistema de C&T+I enfrenta hoje uma brutal compressão orçamentária e os programas de governo estão focados nas urgências de curto prazo. Deveriam dar atenção aos desafios postos pelas inovações disruptivas. O tempo é curto e não espera por retardatários.

O Instituto Global McKinsey (MGI), nos Estados Unidos, acaba de publicar o estudo A globalização em transição: o futuro do comércio e das cadeias de valor, que analisou 23 cadeias de valor abrangendo 43 países, para entender como o comércio, a produção e a participação relativa dos países nos mercados mudaram de 1995 a 2017.

As conclusões, muito interessantes e dignas de atenção, mostram que o aumento do consumo em países em desenvolvimento, como a China, leva a uma mudança gradual do crescimento liderado pelas exportações para o crescimento liderado pelo consumo.

Nos setores estudados pela McKinsey, a China exportou 17% do que produziu em 2007, mas apenas 9% em 2017. O aumento do consumo interno significa menos exportações, fortalecimento das cadeias de fornecimento domésticas e, consequentemente, menos importações.

Além disso, as cadeias de valor regionais, com fornecedores geograficamente mais próximos, tornam-se proeminentes à medida que as economias emergentes amadurecem e se tornam capazes de prover produtos intermediários antes fornecidos por economias avançadas.

Outra conclusão importante é que, conforme a intensidade do comércio global de produtos declina, os fluxos de dados, serviços, bens e ativos intangíveis — software, branding, design, etc. — desempenham papel cada vez mais importante em unir a economia global.

Todas as cadeias de valor globais estão se tornando mais intensivas em conhecimento, o que alimenta o comércio de serviços e de ativos intangíveis, além de criar mais valor para empresas e países que investem na geração de conhecimento e inovações.

E novas ondas tecnológicas poderão reduzir o comércio global de bens e alimentar ainda mais os fluxos de serviços. Plataformas digitais e melhorias nas tecnologias de logística, via Internet das Coisas (IOT), inteligência artificial (IA) e blockchain, poderão reduzir significativamente custos de fabricação de bens, enquanto seu desenvolvimento cria novas oportunidades para exportações de serviços.

Da mesma forma, o surgimento de inovações baseadas em manufatura aditiva (impressão 3-D) irá permitir que mais itens sejam fabricados localmente. A profundidade das mudanças pode ser ilustrada, por exemplo, pelo impacto da substituição de automóveis convencionais por elétricos, que leva à drástica redução da demanda por peças e componentes e à crescente demanda por softwares, componentes eletrônicos e serviços sofisticados.

É fácil concluir que o fim da globalização é altamente improvável. São enormes as oportunidades ainda não aproveitadas para nos beneficiarmos da conectividade global.

Mas é também evidente que os países necessitarão de inteligência estratégica e planejamento sofisticado para definição de configurações setoriais, políticas públicas, capacitação e estímulos que os habilitem a lidar com a complexidade da nova globalização. Pior para os que se renderem a dicotomias e debates estéreis entre visões puramente locais versus visões globais do futuro.

Fonte: LinkedIn