7 DE SET DE 2017
Precisamos nos preparar para a falta d’água e não adianta rezar
Estamos diante de um risco global. A falta d’água é um problema que afeta todas as regiões do planeta e pode, inclusive, gerar conflitos entre nações. Mas, se nos planejarmos direitinho, tudo vai ficar bem. Essa é a opinião de Seth M. Siege
10 respostas de Seth M. Siegel
Estamos diante de um risco global. A falta d’água é um problema que afeta todas as regiões do planeta e pode, inclusive, gerar conflitos entre nações. Mas, se nos planejarmos direitinho, tudo vai ficar bem. Essa é a opinião de Seth M. Siegel, ativista e escritor americano, autor do livro “Faça-se a Água”, lançado recentemente no Brasil pela editora Educ, que pertence à PUC de São Paulo.
"Podemos, sim, encarar um apocalipse", diz Siegel.
Mas, também é possível nos tornarmos mais espertos.
"O maior exemplo, diz o escritor, é Israel. O país está localizado na região mais seca do mundo e, mesmo assim, não tem problemas com água e produz todos os vegetais que consome".
Confira a entrevista
O mau uso da água é um problema global e, há muito tempo, se fala que a falta dela pode levar ao apocalipse. Sua visão é um pouco mais otimista, sem, no entanto, diminuir o tamanho do problema. Por que?
Muitas pessoas que leem meu livro esperam deparar apenas com coisas ruins. Mas a realidade é que, se planejarmos corretamente, tudo vai ficar bem. Agora, quero deixar uma coisa muito clara, podemos, sim, encarar um apocalipse. Mas também é possível nos tornarmos mais espertos, como Israel, e evitarmos o fim do mundo.
Em seu livro, o sr. aborda, também, a questão geopolítica da água. Haverá conflitos, no futuro, relacionados a esse recurso?
É possível. Mas o oposto disso também é. Se a água for utilizada como uma forma de engajamento, ela pode ser, inclusive, um motivo para a resolução de conflitos. É o que Israel tem feito. Podemos ter guerras relacionadas à água? Claro que sim. Mas meu palpite é que não teremos.
Agora, e se os governos falharem, as empresas podem liderar esse movimento para utilizar melhor os recursos hídricos?
As empresas, sozinhas, não vão liderar. Existem muitos componentes na sociedade: governo, universidades, corporações, organizações não governamentais, etc. Cada um deles tem um papel para o futuro. Trata-se de um esforço coordenado.
Quais tecnologias podem ser utilizadas nesse processo de melhorar o uso dos recursos hídricos? Elas são acessíveis a países em desenvolvimento?
Primeiramente, a agricultura absorve a maior parte da água. Então, mude para um sistema de irrigação por gotejamento. Em segundo lugar, é preciso considerar que a população produz um grande volume de esgoto. Mas isso é previsível. Todo mundo faz praticamente a mesma quantidade de xixi e dá o mesmo número de descargas por dia. Então, é possível saber exatamente a quantidade de água que vai pelo ralo, que pode ser tratada em alto nível e reutilizada para agricultura. Em terceiro lugar, nas regiões costeiras, é viável dessalinizar a água. Por último, se você conserta seus vazamentos, economiza uma quantidade enorme de água. Israel, como a maioria dos países, perdia cerca de um terço da sua água dessa maneira. Hoje, a taxa de perda está em 9% e a meta é chegar a 5%.
O Brasil tem mais de 10% de toda a água potável do mundo. Mesmo assim, sofremos com a escassez e com o racionamento. O que o País está fazendo errado?
Sim, é verdade que o Brasil tem a maior reserva de água do mundo, na Amazônia. Mas, o problema é que a água, muitas vezes, não está localizada onde as pessoas estão. Usar as condições climáticas como desculpa, por outro lado, é inaceitável. O motivo pelo qual escrevi o livro é por estarmos diante de um risco global. Precisamos nos preparar para a falta d’água e não adianta rezar. É preciso mudar a agricultura, construir a infraestrutura para o reuso da água, desenvolver usinas de dessalinização e usar a tecnologia para evitar vazamentos nas tubulações. Se você fizer tudo isso, é impossível ficar sem água, a menos que aconteça uma catástrofe.
Rezar para chover é o que nossos ancestrais faziam. Não parece uma boa ideia nos dias de hoje…
Não tenho nada contra rezar. Mas se você fizer apenas isso, e nada mais, irá se decepcionar.
No Brasil, as perdas por vazamento giram em torno de 40% a 50%.
Exato. Pense a respeito. Se, há cinco anos, a decisão de consertar os encanamentos tivesse sido tomada, hoje o País teria mais água do que conseguiria usar. Nesse nível de eficiência, basicamente, você está usando dois anos de estoque para dar conta de um.
Uma petroleira que perde 40% da sua produção em vazamentos é uma empresa inviável. Por que se permite esse nível de ineficiência na distribuição de água?
A diferença é que pagamos pelo petróleo. Quando colocamos gasolina no carro, queremos pagar US$ 1 por litro, e não US$ 2. A água, por sua vez, é vista como algo que obtemos de graça, como o ar. Enquanto abrirmos a torneira e a água estiver saindo, estará tudo bem. É preciso que os líderes enxerguem o problema e que o público seja educado a respeito da importância da água. É possível fazer isso no Brasil. Eu sei disso porque Israel vem fazendo há anos. O país tem a população que mais cresce no mundo, uma economia pujante e está na região mais seca do planeta. Mesmo assim, provê água para a população 24 horas por dia e produz todos os vegetais que consome. Israel chega a exportar água, sendo responsável por 10% do abastecimento da Jordânia.
Durante a recente crise hídrica enfrentada pelo Sudeste brasileiro, muitas pessoas passaram a economizar e a reutilizar a água. Mas, com a volta das chuvas e os reservatórios cheios, a preocupação arrefeceu…
Sim e, por sinal, eu garanto uma coisa: vai faltar água de novo. Haverá outra seca e, se o Brasil não usar esse tempo para se preparar, será ainda pior.
Em relação a Israel, a água também se tornou um negócio que traz lucros?
É um mercado multibilionário. É um bom negócio por duas razões: primeiramente, Israel exporta suas tecnologias para vários países. Em segundo lugar, nenhum empresário israelense precisa se preocupar com a falta d’água, que é um risco para a maioria das empresas.
Créditos: Faça-me água.
Águas residuais são foco do Dia Mundial da Água 2017
O Dia Mundial da Água, celebrado neste 22 de março, marca discussões sobre uso e disponibilidade de recursos hídricos em todo o mundo. Este ano, o tema que guia os debates é a coleta, tratamento e reúso de águas residuais, ou seja, da água descartada pela indústria, comércio, residências e agropecuária.
Apesar de impróprias para o consumo, as águas residuais são os recursos hídricos que podem ser utilizados para outros fins após tratamento. Segundo a ONU, os benefícios para a saúde humana e para o desenvolvimento e sustentabilidade ambiental são muito maiores que os custos da gestão dessas águas, fornecendo novas oportunidades de negócios.
Atualmente, ao redor do mundo, apenas 20% desses recursos passam por tratamento sanitário. Os outros 80% voltam à natureza levando a poluição do uso humano, segundo a ONU.
Reúso da água
Apesar de não haver dados globais mais precisos, sabe-se que parcelas significativas da água que é retirada dos mananciais ou derivada de redes públicas de abastecimento acabam se tornado águas residuais. Em 2016, no Brasil, o volume dessa retirada foi de 2.275 m³/s (metros cúbicos por segundo), segundo informações da Agência Nacional de Águas (ANA).
O setor de irrigação foi responsável pela maior parcela dessa retirada (55% do total; 1.253 m³/s), seguido do abastecimento humano urbano (22%; 503 m³/s), setor industrial (15%; 346 m³/s), pecuária (6%; 135 m³/s) e abastecimento humano rural (2%; 38 m³/s).
O volume efetivamente consumido foi de 1.210 m³/s, correspondendo à irrigação 75% (913 m³/s), ao abastecimento humano urbano 8% (101 m³/s), ao setor industrial 6% (69 m³/s), à pecuária 9% (108 m³/s) e ao abastecimento humano rural 2% (19 m³/s).
No ano passado, a ANA estima que o País tenha gerado 1.065 m³/s de águas residuais, relacionadas às seguintes atividades: abastecimento humano urbano (402 m³/s), irrigação (340 m³/s), indústria (277 m³/s), pecuária (27 m³/s) e abastecimento humano rural (19 m³/s).
Parte dessa água é disposta no solo, de maneira planejada ou não, antes ou depois de receber tratamento. Ou seja, nem todo o volume de águas residuais gerado acaba disponível para reuso.
Segundo informações de relatório mundial das Nações Unidas sobre o desenvolvimento dos recursos hídricos, já de 2012, as ocupações urbanas são a principal fonte de contaminações pontuais. A água residual urbana é um “elemento particularmente ameaçador quando combinada com resíduos industriais não tratados", alerta a entidade.
Desperdício
A Organização das Nações Unidas (ONU) chama atenção para o desperdício: as águas residuais restantes do uso humano que se tornam, então, impróprias para consumo, podem ser reaproveitadas em atividades que não exigem água potável, como sistemas de aquecimento e resfriamento.
Práticas como essa evitam o desperdício e são essenciais, pois, até 2030, a demanda por água deve aumentar 50%, o que exigirá mais esforços para melhorar os sistemas de coleta e tratamento de águas residuais e garantir o reaproveitamento máximo.
Individualmente, cada pessoa pode fazer sua parte para evitar o desperdício de recursos hídricos, como coletar água da chuva para atividades domésticas, de irrigação ou lavagem de veículos, por exemplo. Acesse mais dicas aqui.
A ANA destaca que, diante da escassez hídrica verificada em muitas regiões, antes mesmo de se pensar em reúso, deve-se dar preferência a equipamentos e processos que utilizem menor volume de água e que gerem o menor volume possível de águas residuais.
Créditos: MMA.
Fonte: LinkedIn