5 DE JUN DE 2023
Produtividade: o desafio brasileiro
Para que a economia de um país cresça de forma sustentada, com elevação da renda per capita e com menos desigualdades, é fundamental que obtenha uma trajetória favorável de ganhos de produtividade. Isso é importante para amortecer as tensõe
A CARTA Carta IEDI, 1173 destaca sobre a produtividade como desafio brasileiro.
Para que a economia de um país cresça de forma sustentada, com elevação da renda per capita e com menos desigualdades, é fundamental que obtenha uma trajetória favorável de ganhos de produtividade. Isso é importante para amortecer as tensões próprias do processo de crescimento e amenizar potenciais conflitos distributivos, que poderiam pressionar, ao longo do tempo, a oferta de trabalho, energia e recursos naturais e elevar a inflação.
O Brasil tem muito a fazer na agenda da produtividade, especialmente agora em que se aproxima do fim o chamado “bônus demográfico”, dificultando a obtenção de taxas mais robustas de crescimento do PIB, e quando o resultado das últimas eleições indica a adoção de uma política de valorização real dos salários.
Por diferentes ângulos e formas de medir, fica evidente nosso insuficiente desempenho. No caso da indústria de transformação, por exemplo, o nível de produtividade por hora trabalhada, em 2021, estava 16,2% abaixo do verificado 25 anos antes e o valor agregado por trabalhador no setor registrava uma queda de 22,7% entre 1995 e 2021.
Além de coibir nosso crescimento econômico, esta performance também retira competitividade internacional do Brasil. No agregado da nossa economia, a produtividade do trabalho no país era equivalente a 46% da produtividade média do trabalho nos EUA, em 1980, mas regrediu para 25% em 2021, isto é, o mesmo patamar verificado em 1955. Vale observar que este período de retrocesso coincide com a queda de participação da indústria no PIB brasileiro.
Nesta mesma direção, estudo da CNI sobre o período mais recente, entre 2000 e 2019, mostra que a produtividade média dos nossos principais competidores internacionais avançou mais rápido do que a do Brasil, resultando em uma queda da produtividade efetiva da indústria brasileira de cerca 14,8%.
A produtividade, contudo, é a resultante de uma equação complexa de fatores de diferentes naturezas, tanto cíclicos como estruturais e externa bem como internamente às empresas. Em parte, graças às economias de escala da indústria, quando o PIB se acelera baseado no dinamismo industrial, a produtividade de toda a economia tende a progredir mais. Por isso, os últimos anos de fraca evolução da indústria são um obstáculo importante.
Apesar disso, a verdade é que tudo que influencia o valor agregado influencia a produtividade, o que inclui a qualidade do ambiente de negócios, o perfil da tributação de bens e serviços, a adequação da infraestrutura, o grau de integração internacional e a qualidade da educação, mas também recebe influência da qualificação dos gestores das empresas, da renovação do estoque de capital, da adoção de melhores práticas de gestão, do uso de tecnologias digitais e do desenvolvimento de novos produtos com maior agregação de valor.
O desempenho da indústria de transformação é pior do que o da indústria geral. Por um lado, é esperado que o nível de produtividade do trabalho da indústria em geral seja mais alto do que o da indústria de transformação, pois aquela inclui atividades muito intensivas em capital, como a mineração e a extração e produção de petróleo. Independentemente desta observação, ao longo do tempo importa mais analisar a evolução dos indicadores do que o nível dos índices e, neste caso, ambos as trajetórias são de declínio.