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30 DE ABR DE 2019

TENDÊNCIAS PARA UMA NOVA ECONOMIA

Não há dúvidas de que vivemos uma crise na relação das pessoas com o trabalho. Temos hoje um número recorde de pessoas infelizes, desmotivadas e/ou deprimidas com sua vida profissional. O índice de insatisfação e infelicidade no am

2050 CIDADES TENDÊNCIAS PARA UMA NOVAECONOMIA ROGER MEDKE · 30 DE ABR DE 2019

Um novo significado para o trabalho

Não há dúvidas de que vivemos uma crise na relação das pessoas com o trabalho. Temos hoje um número recorde de pessoas infelizes, desmotivadas e/ou deprimidas com sua vida profissional. O índice de insatisfação e infelicidade no ambiente corporativo está alto. De acordo com uma pesquisa realizada em 21 estados, em 2017, pelo consultor de carreiras Fredy Machado, para seu livro “É Possível se Reinventar e Integrar a Vida Pessoal e Profissional", cerca de 90% das pessoas estão infelizes em seus trabalhos. Desse percentual, 36,52% dos profissionais estão infelizes com o trabalho que realizam, e 64,24% gostariam de fazer algo diferente do que fazem hoje para serem mais felizes. Para o autor da pesquisa, o descontentamento é provocado por uma série de motivos. O principal deles é a definição da profissão muito cedo ou através de imposição dos pais. Trabalhamos a vida inteira sem um propósito definido e no “automático”, apenas para ganhar dinheiro, afirma.

A pesquisa de Machado também revelou que 60% dos entrevistados não têm tempo suficiente para cuidar da saúde. Dado representativo que o autor sentiu na pele. Antes de atuar como consultor, era dono de sete empresas e vivia uma rotina de má alimentação, poucas horas de sono e muitas horas de trabalho, que culminou numa angina, que leva a “dor ou desconforto torácico”.

No Brasil, estima-se que 5,8% da população sofre com depressão, tornando o país o quinto do planeta com maior número de casos. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), esta doença será a segunda principal causa mundial de afastamento de profissionais até 2020. No ano de 2016, a Previdência Social registrou afastamento de 75,3 mil trabalhadores por causa de quadros depressivos, sendo 37,8% do total de licenças por distúrbios psíquicos.

O professor de inglês das redes municipal e estadual de educação do Rio de Janeiro, Márcio Virgílio da Costa, faz parte dessa estatística. O educador já estava incomodado com o desinteresse das crianças e adolescentes pelo conteúdo e também com a falta de estrutura das escolas quando, em novembro de 2017, foi vítima de uma brincadeira de mau gosto de uma turma de oitavo ano do fundamental.

– Os alunos fizeram uma armadilha. Quando entrei na sala, a lata de lixo caiu na minha cabeça. Desde então, entrei em um espiral de tristeza e desânimo – relatou. 

Virgílio começou a fazer tratamento psiquiátrico e foi afastado do trabalho porque a

depressão impedia-o de sair de casa. Na última semana de junho de 2018, o professor recebeu alta do INSS e foi direcionado para uma nova escola, mas teme não conseguir executar o seu ofício porque ainda não se sente recuperado.

A assistente administrativa Kátia Ferreira, de 58 anos, também precisou se afastar do trabalho por conta de uma depressão. Em 2016, ela foi promovida a um cargo de chefia do departamento administrativo, mas, devido à pressão do cargo, desenvolveu psoríase, doença que “se caracteriza por lesões avermelhadas e descamativas, normalmente em placas”, e ainda precisou de acompanhamento psiquiátrico.

– Eu ia trabalhar, via muito trabalho na minha frente e não conseguia executar nada. Tirei férias, mas, quando voltei, o problema continuou – contou Kátia, que ficou afastada por cinco meses.

Um estudo da London School of Economics realizado em 2016 concluiu que os afastamentos por doenças psicológicas causaram perdas de US$ 246 bilhões (cerca de R$ 800 bilhões) por ano em todo mundo. US$ 63,3 bilhões (R$ 206 bilhões) só no Brasil. Segundo Machado, pessoas mais felizes produzem 33% a mais que as infelizes. Para ele, a solução é definir um propósito de vida e trabalhar em uma empresa com os mesmos valores.

Segundo a Organização Mundial da Saúde, os casos de suicídio no mundo já superam a soma de mortos em guerras, homicídios e desastres naturais. Uma lógica de trabalho escravizante, a crise econômica e as elevadas crescentes da taxa de desemprego ajudam a explicar este fenômeno.

Trabalhar apenas por um emprego formal e remuneração estável não faz mais sentido neste século. As pessoas buscam no trabalho um propósito de vida, não um emprego. Um trabalho que empodera, e não que aprisiona.

Assim, estamos diante de uma nova forma de enxergar o trabalho. Veremos, nos próximos anos, o crescimento de tendências como o trabalho autônomo e flexível, questionamento das relações chefe-empregado, engajamento em causas voluntárias, entre outros.

Um exemplo interessante é o crescimento dos nômades digitais, pessoas que buscam trabalhar de forma remota, de qualquer local do mundo, livres das amarras dos escritórios corporativos. Há previsões que poderemos ter, no mundo, cerca de 1 bilhão de nômades digitais em 2035. Uma coisa é certa, o trabalho do futuro exigirá que cada um de nós atualize-se continuamente. Em breve, chegaremos num cenário no qual a maior parte das pessoas escolherá como, quando e com qual empresa quer trabalhar, e não ao contrário. 

Fonte: LinkedIn