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23 DE DEZ DE 2018

TENDÊNCIAS PARA UMA NOVA ECONOMIA

Não há dúvida que vivemos uma crise na relação das pessoas com o trabalho. Temos hoje um número recorde de pessoas infelizes, desmotivadas e/ou deprimidas com sua vida profissional. O índice de insatisfação e infelicidade no ambien

2050 CIDADES TENDÊNCIAS PARA UMA NOVAECONOMIA ROGER MEDKE · 23 DE DEZ DE 2018

Um novo significado para o trabalho

Não há dúvida que vivemos uma crise na relação das pessoas com o trabalho. Temos hoje um número recorde de pessoas infelizes, desmotivadas e/ou deprimidas com sua vida profissional. O índice de insatisfação e infelicidade no ambiente corporativo está alto. De acordo com a pesquisa realizada em 21 estados, no ano 2017, pelo consultor de carreiras Fredy Machado, para seu livro "é possível se reinventar e integrar a vida pessoal e profissional", cerca de 90% das pessoas estão infelizes em seus trabalhos. Desse percentual, 36,52% dos profissionais estão infelizes com o trabalho que realizam e, 64,24% gostariam de fazer algo diferente do que fazem hoje para serem mais felizes. Para o autor da pesquisa, o descontentamento é provocado por uma série de motivos. O principal deles é a definição da profissão muito cedo ou através de imposição dos pais. Trabalhamos a vida inteira sem um propósito definido e no automático, apenas para ganhar dinheiro. - afirma.

A pesquisa de Machado também revelou que 60% dos entrevistados não têm tempo suficiente para cuidar da saúde. Dado representativo que o autor sentiu na pele: antes de atuar como consultor, era dono de sete empresas e vivia uma rotina de má alimentação, poucas horas de sono e muitas horas de trabalho, que culminou numa angina (dor ou desconforto torácico).

No Brasil, estima-se que 5,8% da população sofram com depressão, tornando o país o quinto do planeta com maior número de casos. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), a doença que será a segunda principal causa mundial de afastamento de profissionais até 2020. No ano de 2016, a Previdência Social registrou afastamento de 75,3 mil trabalhadores por causa de quadros depressivos, sendo 37,8% do total de licenças por distúrbios psíquicos.

O professor de inglês das redes municipal e estadual de educação do Rio de Janeiro, Márcio Virgílio da Costa, faz parte dessa estatística. O educador já estava incomodado com o desinteresse das crianças e adolescentes pelo conteúdo e também com a falta de estrutura das escolas quando, em novembro de 2017, foi vítima de uma brincadeira de mau gosto de uma turma de oitavo ano do fundamental.

Os alunos fizeram uma armadilha. Quando entrei na sala, a lata de lixo caiu na minha cabeça. Desde então, entrei em um espiral de tristeza e desânimo. – relatou.

Virgílio começou a fazer tratamento psiquiátrico e foi afastado do trabalho porque a depressão impedia-o de sair de casa. Na última semana, o professor recebeu alta do INSS e foi direcionado para uma nova escola, mas teme não conseguir executar o seu ofício porque ainda não se sente recuperado.

A assistente administrativa Kátia Ferreira, de 58 anos, também precisou se afastar do trabalho por conta de uma depressão. Em 2016, ela foi promovida para um cargo de chefe do departamento administrativo, mas devido à pressão do cargo, desenvolveu uma psoríase (se caracteriza por lesões avermelhadas e descamativas, normalmente em placas) e ainda precisou de acompanhamento psiquiátrico. Eu ia trabalhar, via muito trabalho na minha frente e não conseguia executar nada. Tirei férias, mas quando voltei, o problema continuou. – contou Kátia, que ficou afastada por cinco meses.

Um estudo da London School of Economics, realizado em 2016, concluiu que os afastamentos por doenças psicológicas causaram perdas de US$ 246 bilhões (cerca de R$ 800 bilhões) por ano em todo mundo e de US$ 63,3 bilhões (R$ 206 bilhões) no Brasil. Segundo Machado, pessoas mais felizes produzem 33% a mais que as infelizes. Para ele, a solução é definir um propósito de vida e trabalhar em uma empresa com os mesmos valores.

Segundo a OMS (Organização Mundial da Saúde), os casos de suicídio no mundo já superam os casos de mortos em guerra, homicídios e desastres naturais, somados. Uma lógica de trabalho escravizante, a crise econômica e as elevadas crescentes da taxa de desemprego ajudam a explicar este fenômeno.

Trabalhar apenas por um emprego formal e remuneração estável não faz mais sentido neste século. As pessoas buscam no trabalho um propósito de vida, não um emprego. Um trabalho que empodera e não aprisiona. Assim, estamos diante de uma nova forma de enxergar o trabalho. Veremos nos próximos anos o crescimento de tenências como o trabalho autônomo e flexível, questionamento das relações chefe-empregado, engajamento em causas voluntárias, entre outros.

Um exemplo interessante é o crescimento dos nômades digitais, pessoas que buscam trabalhar de forma remota, de qualquer local do mundo, livres das amarras dos escritórios corporativos. Há previsões que poderemos ter, no mundo, cerca de 1 bilhão de nômades digitais em 2035. Uma coisa é certa, o trabalho do futuro exigirá que cada um de nós atualize-se continuamente. Em breve chegaremos num cenário no qual a maior parte das pessoas escolherá como, quando e com qual empresa quer trabalhar, e não ao contrário. 

Protagonismo dos clientes

A Transformação Digital é sobre pessoas. Portanto, do ponto de vista de empresas, o foco de suas operações passa a ser em gerar novas experiências.

Estamos cada vez mais informados e conectados. Temos maior transparência e facilidade na comparação entre ofertas e capacidade de barganha. Compartilhamos informações uns com os outros. Tudo isso muda o jogo em nosso favor em diversos setores da economia. Com um acesso sem precedentes a informações e conhecimento, os consumidores/usuários passam a definir como e quando acessam produtos e serviços, bem como quanto estão dispostos a pagar por estes. Estão, portanto, mais exigentes, demandando experiências personalizadas e obrigando empresas a rever suas estruturas rígidas e tradicionais. Com o crescente acesso digital, cada um consome o conteúdo que quer, quando quer e como quer, para o pesadelo das mídias convencionais e de seus patrocinadores. O mesmo acontecerá com inúmeras outras empresas que tentam empurrar produtos e serviços sem sentido.

O protagonismo tende a aumentar nossa consciência do que realmente precisamos para viver uma vida digna. A lógica tradicional da economia, que nos estimula a todo o tempo a consumir, passa a ser questionada. Exemplo disso é o mundo da moda, a cerca de alguns anos atrás existiam cerca de quatro lançamentos anuais de moda conforme as estações. Hoje, existem cerca de cinquenta e dois tipos de lançamentos, isso tudo para estimular o consumismo acelerado. Esse episódio é ilustrado pelo personagem Tyler Durden no documentário "O Minimalismo", que a dada altura do episódio refere-se a frase: “compramos coisas que não precisamos, com dinheiro que não temos, para impressionar as pessoas que não gostamos”. Portanto, neste século, somos nós quem passamos a ditar as regras do jogo.

A disponibilidade de informações e a facilidade em nos conectarmos vão além de mudar nossa relação com as organizações, pelo contrário, ajudam a mudar comportamentos, abrindo espaço também para maior cooperação entre as próprias pessoas (economia compartilhada e colaborativa). Passamos a partilhar ativos e colaborar com outras pessoas (pessoa para pessoa). O protagonismo de clientes tende a ser irreversível.

Para alguns, centrar operações em tecnologia remete a um distanciamento do elemento humano, seja na dimensão interna, seja na comercial. No entanto, a tecnologia está a serviço das pessoas e representa hoje a forma mais eficiente de satisfazer grande parte de suas necessidades. A tecnologia aproxima empresas e clientes, pois rompe barreiras e diminui obstáculos na comunicação. Mas ela não se limita a isso, uma vez que oferece experiências de valor, elevando a qualidade dessa relação.

Mas como gerar experiência ao cliente. Esse tema começa a ganhar espaço, veremos nos próximos anos o termo User Experience (UX), mas o que é UX? Para falar sobre UX, é preciso definir o que é o cliente para as empresas da era digital. Durante muito tempo, cliente era aquele que comprava algum produto ou serviço da empresa e, portanto, podemos dizer que a abordagem era um pouco mais limitada, como no caso do serviços VIP, que eram muito comuns no passado. Hoje, os negócios não economizam mais as suas estratégias de fidelização a um número limitado de pessoas com determinado padrão de consumo, colocando-as em prática em todos os pontos de contato com o público. Isso quer dizer que a experiência do cliente está antes, durante e depois do processo de vendas. Além disso, o conceito se estende a colaboradores, fornecedores, parceiros e outras partes interessadas.

Nesse sentido, surgem conceitos como o endomarketing, que diz respeito à fidelização de colaboradores, com ações e campanhas que tornem a vivência de equipes no ambiente de trabalho mais agradável e motivadora.

Mas como funciona realmente o UX? Quando falo que as operações devem estar centradas nos clientes, bem como na sua satisfação, talvez surjam dúvidas sobre como gerenciar esses processos e garantir que o resultado seja positivo, já que tudo depende da percepção do cliente. Acontece que os clientes é que moldam a sua experiência e é por isso que a tecnologia viabiliza a plena prática desse conceito. Afinal, nenhum outro recurso oferece uma interação em tempo real e capaz de se adaptar às necessidades do usuário. Logo, uma boa UX é aquela que cria um fluxo contínuo na interação com a empresa, envolvendo elementos como comunicação, agilidade e valor em cada etapa.

Se antes as empresas estavam voltadas para o produto/serviço, hoje elas precisam estar focadas totalmente nos clientes, pois assim o seu produto/serviço terá qualidade e valor percebido para quem de fato é o maior interessado. Uma coisa puxa a outra. Diante disso, o gerenciamento da experiência do cliente é voltado para o design das interações em cada ponto de contato.

E qual a importância da UX na transformação digital. Bem esses dois conceitos possuem uma relação de interdependência, pois a transformação digital não acontece apenas com tecnologia, mas com uma mudança de mentalidade nas empresas (Mindset das empresas). Uma empresa que caminha para a transformação digital é uma empresa em movimento. Esse movimento compreende estágios que envolvem elementos como o investimento em tecnologia, mudanças em operações, treinamento, domínio sobre as tecnologias e a experiência digital do cliente.

Veremos que estágios são esses e como eles não ocorrem necessariamente de forma linear.

Primeiro, o negócio como usual: As organizações operam com uma perspectiva de legado familiar dos clientes, processos, métricas, modelos de negócios e tecnologia, acreditando que ela continua a ser a solução para a relevância digital, mesmo com foco no produto ou serviço, não no cliente.

Segundo, presente e ativo: Nesse estágio, embora ainda de forma desorganizada, experimentações no cenário digital estão gerando aprendizado digital e criatividade em toda a organização, visando melhorar e ampliar a experiência do consumidor em pontos de contato específicos, além de otimizar processos que a empresa considera como prioridade.

Terceiro, oficializado: Com mais domínio sobre os elementos da transformação digital, a experimentação se torna intencional e é executada em níveis mais promissores e capazes de trazer resultados. As iniciativas tornam-se mais ousadas e, como resultado, agentes de mudança buscam apoio estratégico para novos recursos e tecnologias.

Quarto, estratégico: Os grupos individuais reconhecem a força em colaboração, pois sua pesquisa, trabalho e percepções compartilhadas contribuem para novos roteiros estratégicos que planejam a transformação digital de propriedade, esforços e investimentos. A melhor experiência e maior colaboração dos funcionários dentro da empresa é refletida na experiência que oferecem em todos os pontos de contato com seus clientes, assim como nos produtos ou serviços em si.

Quinto, convergido: Uma equipe de transformação digital dedicada se forma para orientar a estratégia e as operações com base em metas empresariais personalizadas e foco na experiência do consumidor. A nova infraestrutura da organização toma forma em cargos, conhecimentos, modelos e processos e, assim, os sistemas para apoiar a transformação são solidificados. 

Sexto, inovador e adaptativo: A transformação digital torna-se um modelo de negócio, já que executivos e estrategistas reconhecem que a mudança é constante e investem nessa evolução. Um novo ecossistema é estabelecido para identificar e atuar em tecnologia nas tendências de mercado (que ainda se encontram em uma fase inicial e, eventualmente, em escala, mas que representam uma alternativa compatível com as necessidades da empresa) e soluções em tempo real para as expectativas dos clientes. Dessa maneira, a transformação digital mexe com todos os processos de um negócio e os direciona para um novo tipo de experiência do cliente, utilizando a tecnologia para criar uma abordagem personalizada, veloz e com um valor que é percebido por ele mesmo. 

Fonte: LinkedIn