24 DE OUT DE 2020
Tudo como serviço “Everything as a Service” - XaaS
Que os tempos são outros isso todos devemos concordar. Uma nova era de incertezas bem como de mudanças em velocidade exponencial, onde o novo se torna obsoleto muito rápido. Tudo isso potencializado pelos uso das tecnologias digitais, e que
Que os tempos são outros isso todos devemos concordar. Uma nova era de incertezas bem como de mudanças em velocidade exponencial, onde o novo se torna obsoleto muito rápido. Tudo isso potencializado pelos uso das tecnologias digitais, e que torna tudo que antes era fixo e sub utilizado em serviços. Em vez de quarta revolução industrial, devemos chamar de primeira revolução de serviços - termo dito pelo Cezar Taurion.
Toda mudança na sociedade é disparada por eventos marcantes. O século 20, na verdade, começou em 1918, com o fim da Primeira Guerra Mundial e a pandemia da gripe espanhola. O século 21 está começando agora, no pós-Covid, e principalmente mostrará as diferenças com relação à era anterior com o pós-Covid, quando depois de uma inédita paralisação do planeta, estaremos retornando aos poucos a uma nova vida, ou uma vida nova, como queira chamar, e isso tudo em um cenário ainda incerto, que podemos chamar de novo normal? ou será que não voltaremos ao normal antes do período COVID. Eu costumo dizer que saberemos responder a essa pergunta e entender esse momento no futuro breve, quando olharmos para 2020.
Vivemos tempos de poucas certezas, muito diferente do século 20, onde tudo parecia lento, previsível e as mudanças eras lentas. Hoje, a mais concreta é que o mundo digital foi acelerado de forma abrupta. O século 20 foi o auge da evolução da sociedade industrial, onde os produtos manufaturados foram a base da economia. Tudo girava em torno dos produtos e das principais indústrias. Com a era digital (século 21), veremos um novo contexto, onde os serviços e o intangível passam a ser o principal ativo. A tecnologia está fazendo com que os serviços passem a ser os novos produtos.
Um artigo postado em 2018 no Information Age, com o título de “Servitisation: how technology is making service the new product” (Servitização: como a tecnologia está tornando o serviço o novo produto) mostra que estamos vivenciando uma transição de modelo mental, saindo do conceito de propriedade ou posse, para uso ou acesso. Não preciso de uma máquina de lavar ou um automóvel, mas quero roupa lavada ou me deslocar de um lugar a outro. O serviço e a experiência proporcionada por ele é que fará a diferença entre as empresas vencedoras e as que ficarão presas aos modelos de negócio do século passado e tenderão a cair na irrelevância, dai o termo “everything as a service”, ou "tudo como serviço".
Pra isso acontecer são necessárias tecnologias que já existem, mas que devem ser usadas de forma integrada e convergente como: a Internet das coisas, o uso intensivo da inteligência artificial, os dispositivos móveis (smartphones), a realidade virtual e aumentada, impressoras 3D e o mais disruptiva eu diria com o uso de blockchain. Não são necessárias todas elas em todas as aplicações, mas são elas as peças do "lego" dos novos modelos de negócios que já estão surgindo. Adicione a isso tudo ainda o Code Halo e as APIs.
Exemplificando a ideia: No modelo industrial, as fabricantes de automóveis (montadoras) competiam por oferecer os melhores produtos, automóveis que os usuários compravam e usavam por algum tempo. Na prática, um automóvel é um ativo que se desvaloriza rapidamente e, para um usuário típico, é muito pouco usado na sua vida útil, ou seja, fica grande parte do seu tempo parado.
Imagine que você se desloca de manhã para o escritório e no final do dia, faz o percurso inverso, do escritório para sua casa. No fim de semana o usa para alguns deslocamentos como ir ao shopping ou supermercado. Com a intensificação do “working anywhere” ou "trabalhe de qualquer lugar", trabalhando em casa ou no escritório, provavelmente não precisaremos mais nos deslocar diariamente para o escritório. E pela maior aceitação do comércio online, serão necessárias menos idas aos supermercados.
O conceito de “everything as a service” já é comum em TI, com o uso de cloud computing e assinaturas de softwares. O que veremos é sua disseminação por outros setores de indústria. Na indústria automotiva, por exemplo. A convergência de fatores como a eletrificação, a automação e o “everything as a service” mudarão por completo a cadeia de valor da indústria. Os fabricantes continuarão a fabricar veículos, para aqueles usuários que ainda desejarão ter um, mas poderão produzir para eles mesmo alugarem para seus clientes, por demanda. E acredite, com os carros autônomos vindo ai, a fabrica é quem vai pilotar os carros do futuro, será simples, você simplesmente chama um carro pelo aplicativo e ele vai te levar onde você desejar. Veja o caso da TESLA, que revolucionou completamente o mercado automobilístico.
Olhando os fatores acima, vemos que isso vai transformar as montadoras, de fabricantes para empresas de serviços de mobilidade, e essa transformação vai provocar uma onda de mudanças em toda a cadeia. Precisaremos ter tantas concessionárias, se menos veículos serão vendidos? Precisaremos de seguros de automóveis como hoje, se o veículo fabricado por uma montadora continua pertencendo a ela? Qual será a diferença entre, por exemplo, uma GM, o Uber e a Localiza? Nenhuma eu diria, você vai alugar um carro e vai do ponto A até o ponto B. Será que ainda precisaremos de carteiras de habilitação? Será que haverá multas de infração de trânsito já que os carros serão cada vez mais automatizados a ponto de que as estradas é que irão limitar e controlar a velocidade dos carros.
Trazendo para o exemplo da máquina de lavar roupa, vamos olhar para elas também. Um fabricante de máquina de lavar pode se transformar em uma empresa de serviços, que fabrica a máquina, mas não a vende para você. Ele a aluga e instala em sua casa. Com sensores de IoT, consegue desde fazer manutenção preditiva (evitando que você fique correndo atrás de escasso e caros serviços de consertos) ao refil dos detergentes e sabões em pó que serão usados nas lavagens. A Amazon já laçou os seus BECON com várias marcas de produtos, onde esse BECON é um botão simples que você programa e quando por exemplo o sabão em pó está quase acabando, você simplesmente aperta no botão e em pouco tempo você estará recebendo em sua casa uma nova embalagem de sabão em pó, que inclusive poderá ser entrega por um DRONE na porta da sua casa. Isso já existe. Veja aqui.
Indo mais além e dependendo do modelo de negócio e plano de serviços que você optar em adquirir, quando o seu estoque estiver acabando, a máquina poderá automaticamente enviar uma mensagem para um parceiro de negócios, que envia o refil para sua residência. Vemos aí um cenário interessante: o fabricante não precisa de um varejista, pois você não quer mais comprar uma máquina de lavar (ou geladeira, fogão ou qualquer outro aparelho caro), mas sim usar os serviços que o aparelho/equipamento lhe fornece. O fabricante passa a ser uma empresa de serviços, com o produto físico envolvido por uma camada digital, com sensores e integração com algoritmos de inteligência artificial. O serviço passa a ser feito por assinatura e com direito às atualizações de software via internet e wi-fi. A mesma máquina de lavar pode incorporar novas funcionalidades com novas versões de software.
O conceito de uso ou acesso em substituição à posse ou propriedade tem muito alinhamento com várias macrotendências que vemos hoje no mundo: preocupação com meio ambiente, regionalismo e conflitos geopolíticos que afetam o trânsito de mercadorias físicas entre países. Também em situações extremas, como a pandemia e as ações de lockdown, os contatos físicos são extremamente limitados, e os online incrementados. Com o conceito de “everything as a service” e a economia do compartilhar como modelo mental, as cadeias de valor digitais não seriam interrompidas.
Em 2015 a PwC publicou um interessante estudo sobre a “sharing economy” que pode ser baixado > “Sharing or paring? Growth of the sharing economy”, mostrando como isso afetaria diversos setores da economia como turismo e hotelaria (Airbnb), mobilidade (Uber), entretenimento (Netflix e Spotify), bens de consumo, finanças e até mesmo o mercado de trabalho, com o TaskRabbit nos EUA e similares no Brasil, como o Getninjas. O estudo da PwC apontava que até 2025 esse modelo econômico movimentaria, globalmente, cerca de US$ 335 bilhões. Trago esse tema com pouco mais de aprofundamento no meu livro.
Devidamente entramos em uma nova era, que talvez no futuro além de ser guiada pela tecnologia digital e inteligência artificial, será basicamente de serviços, será que poderíamos chamar de IA-XaaS (inteligência artificial como serviço). Então, em vez de quarta revolução industrial, devemos chamar de primeira revolução de serviços, como reforçou Cezar Taurion, que é fundador do I2A2.
Estamos na fase muito inicial disso tudo, dando os primeiros passos. Um estudo publicado na FORBES, em 28 de fevereiro de 2019, “Digital-Industrial Revolution: Ready To Run After Very Slow Start, New Survey Shows” , que em tradução livre seria "Revolução digital-industrial: pronto para correr após um início muito lento, mostra uma nova pesquisa", efetuado com empresas americanas onde mostrou que apenas 11% das empresas tinham cerca de ¾ dos seus processos modernizados com uso de Internet das Coisas. No brasil esse cenário é muito mais baixo, me arrisco a dizer que seja menos de 2%. O uso de Inteligência Artificial também ainda está no período do jardim de infância e vemos aqui e ali alguns bots (robôs) sendo premiados como grandes inovações do ano. Quando um bot de relacionamento básico com clientes é inovação do ano, isso sinaliza que ainda estamos engatinhando em IA.
A convergência tecnológica da IoT e IA é uma necessidade de sobrevivência. Entrar para competir na sociedade digital alavancada por serviços demanda muito dados e algoritmos. A sociedade de serviços implica que a competição passa do produto para excelência e experiência nos serviços. E isso nos leva a personalização. A melhor experiência é aquela personalizada e não a de massa, como vemos hoje nas relações típicas de muitas empresas com seus clientes. Assim, personalização passa a ser o mantra do varejista, do banco e até da indústria.
Na indústria, um case exemplar é a Tesla, onde a experiência do carro é personalizada através de software. O mesmo carro pode proporcionar experiências personalizadas e diferentes com a implantação de uma câmera de vídeo interna. Vale a pena ler o artigo “Tesla reveals how it will use camera inside Model 3 to personalize in-car experience” para entender o que Elon Musk diz sobre “dynamic personalization”.
Fica o alerta: a indústria automotiva tradicional usa custosos recalls para atualizar ou corrigir funções que muitas vezes são puro software. A Tesla faz autodiagnóstico e pode até efetuar as atualizações via download pela internet, à noite, quando o carro está estacionado na garagem. É instigante o artigo “Tesla vehicles can now diagnose themselves and even pre-order parts for service”. É o pensar digital, a reinvenção digital dos processos, contra a digitalização dos processos. Foi inclusive essa tecnologia que permitiu que a TESLA atualizasse o software das baterias dos veículos que estavam na área do furacão IRMA em 2017 na Carolinas, permitindo que os veículos que estavam na área do furação ganhassem cerca de 90 milhas de autonomia.
Isso tudo não lembra a substituição do modelo de aluguel de vídeos da era Blockbuster pela experiência superior de streaming de filmes proporcionado pelo Netflix? A Netflix personaliza a experiência do usuário e você vê os filmes na hora que quiser e continua de onde parou. Pois é, na era digital e do “everything as a service” o seu benchmark, qualquer que seja o setor que você atua, passa a ser empresas como Netflix.
Lembre-se também que as empresas que vão sobreviver no século 21 terão que pensar de forma digital e criar modelos de negócio que reflitam este pensamento. Os modelos de negócio que deram muito certo no século 20 não garantirão o sucesso no século 21. A competição deixou de ser simétrica e limitada aos atores do próprio setor, para ser assimétrica, com os setores fluídos, sem fronteiras. Não importa o produto ou serviço, a diferença competitiva vai estar no valor percebido da experiência digital e personalizada. A pergunta então é: você está preparado para competir na era digital e do “everything as a service”?
Se você gostou desse tema e quiser compartilhar, fique a vontade.
Fonte: LinkedIn