30 DE AGO DE 2026
Uma Tese à Prova do Futuro: como se posicionar diante do inevitável
Não se trata de prever o futuro. Trata-se de escolher em quais futuros vale a pena estar posicionado.
Não se trata de prever o futuro. Trata-se de escolher em quais futuros vale a pena estar posicionado.
Existe uma diferença importante entre tentar adivinhar o que acontecerá nos próximos meses e construir uma tese para os próximos dez ou vinte anos.
No primeiro caso, discutimos juros, inflação, eleições, câmbio, valuation, ciclos econômicos e acontecimentos conjunturais. São variáveis importantes, mas carregadas de incerteza.
No segundo, a pergunta muda.
Em vez de perguntar “o que vai acontecer?”, talvez devêssemos perguntar:
“O que dificilmente deixará de acontecer?”
Essa mudança aparentemente simples altera completamente nossa maneira de pensar investimentos, negócios, profissões e até a própria carreira. É algo que tenho estudado, além de ser uma de minhas palestras sobre "Sinais do Futuro".
Foi uma das ideias que mais me chamou atenção em uma entrevista de um especialista e investidor recente sobre investimentos em Deep Tech foi:
a construção de uma tese baseada em inevitabilidades. A lógica consiste em neutralizar parte da incerteza procurando fenômenos estruturais cujas forças já estão em movimento e que dificilmente serão revertidas.
Não estou falando aqui de recomendação financeira, muito menos de indicação de ativos.
Estou falando de uma tese de posicionamento para o futuro. Da qual eu tenho seguido, e continuo acreditando ser uma boa tese de futuro.
Ela me guia como maneira de decidir onde colocar atenção, conhecimento, capital intelectual, tempo, carreira e, eventualmente, investimentos.
O futuro não precisa ser previsto. Precisa ser interpretado.
Existe uma frase mencionada na entrevista que sintetiza muito bem esse problema:
“Nós sempre superestimamos os próximos 12 meses e subestimamos os próximos 10 anos.”
Obs: a primeira pessoa a registrar essa frase por escrito de forma documentada foi J. C. R. Licklider em 1965. Mais tarde, o conceito foi formalizado por Roy Amara (originando a famosa "Lei de Amara") e amplamente popularizado mundialmente por Bill Gates.
Bem, mas essa frase diz algo. Esse ditado talvez seja um dos maiores erros de percepção da nossa época.
No curto prazo, exageramos.
Achamos que uma nova tecnologia mudará tudo amanhã. Que um lançamento destruirá uma indústria em seis meses. Que uma nova plataforma eliminará profissões imediatamente.
Depois vem a frustração.
A transformação demora mais do que imaginávamos.
Mas dez anos depois, quando olhamos novamente, o mundo mudou muito mais profundamente do que esperávamos.
Foi assim com internet.
Foi assim com smartphones.
Foi assim com computação em nuvem.
Provavelmente será assim com Inteligência Artificial, biotecnologia, robótica, novos materiais e diversas outras tecnologias que hoje ainda estão sendo construídas nos bastidores.
Por isso, uma tese à prova do futuro não tenta acertar o calendário. Gosto de usar a frase em minhas palestras sobre "O futuro nunca se engana, ele sempre chega".
Essa tese portanto, tenta acertar a direção.
Escrevendo e revisando esse texto, me veio em mente a tese do Nassin Tabeb, e ai parei alguns minutos para tentar fazer uma analogia das duas teses.
Não tente prever cada movimento dos próximos 12 meses. Construa posições robustas para os próximos 10 anos. Como diria Taleb, o futuro favorece quem reduz a fragilidade, preserva optionalidade e evita a ruína — mesmo quando não consegue prever o caminho exato.
A tese da inevitabilidade
Minha interpretação dessa lógica é simples:
quanto maior a inevitabilidade de um problema, maior a probabilidade de existir demanda persistente por soluções para ele.
Mas isso não elimina risco. E essa distinção é fundamental.
Uma tendência inevitável não significa que todas as empresas posicionadas nela serão vencedoras. A história está cheia de líderes que estavam no centro de mercados relevantes e, ainda assim, perderam protagonismo. Nokia, BlackBerry e Kodak são exemplos clássicos: não estavam em setores condenados, mas falharam em interpretar a mudança, reagir no tempo certo ou abandonar modelos que já estavam ficando obsoletos.
Também não significa que qualquer tecnologia associada ao futuro será, automaticamente, um bom investimento. Basta olhar para o volume de capital direcionado à Realidade Virtual e ao metaverso. Bilhões foram investidos em uma tese tecnologicamente plausível, mas cuja adoção, timing e modelo econômico se mostraram muito mais complexos do que o entusiasmo inicial sugeria.
Por isso, e para isso, uma tese de inevitabilidade precisa separar três coisas:
Tendência estrutural, problema inevitável e solução tecnológica.
A tendência pode ser previsível. O problema pode ser persistente. Mas a solução continua sujeita a risco de execução, timing, competição, modelo de negócio e adoção.
É justamente aí que está a estratégia.
Não basta escolher o mercado certo. É preciso escolher a posição certa dentro dele.
O que essa lógica nos permite fazer é jogar em campos onde a demanda estrutural tende a continuar existindo, mesmo que ainda exista enorme incerteza sobre quais empresas, tecnologias ou modelos serão os vencedores.
E vejo pelo menos dois grandes vetores particularmente interessantes.
1. Vamos viver mais. E isso muda uma economia inteira.
O primeiro vetor é demográfico.
A expectativa de vida da população vem aumentando há décadas. E expectativa global está em torno de 74 anos e que mais de 20 países já ultrapassaram os 82 anos.
Independentemente do número exato daqui a cinco ou dez anos, a direção parece clara:
estamos construindo uma sociedade mais velha.
E isso altera completamente a natureza dos problemas que precisaremos resolver.
Durante boa parte da história moderna, o grande desafio da medicina era combater doenças infecciosas, como:
Sarampo.
Tétano.
Coqueluche.
Difteria.
Diversas dessas enfermidades foram drasticamente reduzidas pela ciência, vacinas, saneamento e medicina moderna.
Quando uma sociedade começa a viver mais, entretanto, o mapa de problemas muda.
Passamos a enfrentar com maior intensidade:
doenças neurológicas;
câncer;
doenças cardiovasculares;
isquemias;
doenças autoimunes;
degeneração celular;
perda cognitiva;
mobilidade reduzida;
dependência assistencial.
Isso cria uma enorme derivada econômica, como:
Biotecnologia.
Medicina personalizada.
Diagnósticos precoces.
Drug discovery.
Genômica.
Equipamentos médicos.
Interfaces cérebro-máquina.
Robótica assistiva.
Saúde preventiva.
Longevidade.
Não estamos falando simplesmente de uma “tendência de mercado”. Mas sim, estamos falando de uma consequência demográfica.
Se milhões de pessoas viverão mais, alguém terá que desenvolver produtos, serviços e infraestrutura para permitir que elas vivam melhor.
2. Vamos continuar nos concentrando nas cidades.
A segunda inevitabilidade é geográfica.
A humanidade tornou-se majoritariamente urbana recentemente e o deslocamento populacional para centros urbanos continua acontecendo em escala gigantesca. Na entrevista, esse movimento é ilustrado com uma imagem poderosa: todos os anos, o equivalente aproximadamente à população de uma Coreia do Sul migra do campo para as cidades.
Essa transformação produz duas consequências aparentemente opostas.
No campo, teremos menos gente.
Mas continuaremos precisando produzir alimentos. Provavelmente mais alimentos, mas com:
Com maior eficiência.
Menor desperdício.
Menos água.
Menos defensivos.
Mais previsibilidade.
Isso significa que agricultura e pecuária necessariamente precisarão ganhar produtividade.
Entram em cena:
automação;
sensoriamento;
robótica;
visão computacional;
drones;
agricultura de precisão;
IA;
genética;
biotecnologia;
máquinas autônomas.
Vi um caso particularmente ilustrativo muito recente de uma empresa (startup) que utiliza coleiras inteligentes para monitorar saúde, localização e movimentação do gado, permitindo que produtores controlem rebanhos remotamente sem a necessidade de cercas físicas.
Observe o princípio por trás da tecnologia.
Não é “porque Inteligência Artificial está na moda”.
É porque existe um problema estrutural:
menos mão de obra + necessidade de produzir mais = automação inevitável.
Essa analogia também aplica-se na indústria de manufatura, na construção civil e áreas de dependem de mão-de-obra humana.
Concorda que esse raciocínio é muito mais poderoso.
Ao mesmo tempo, teremos mais gente nas cidades.
E cidades maiores precisam resolver problemas maiores, como:
Mobilidade.
Energia.
Água.
Saneamento.
Moradia.
Segurança.
Poluição.
Resíduos.
Infraestrutura digital.
Logística.
Saúde.
É praticamente impossível imaginar as próximas décadas sem investimentos gigantescos nessas áreas.
Outra vez, não porque alguém inventou uma narrativa futurista, mas porque milhões de pessoas estarão vivendo nesses ambientes.
Existe, entretanto, uma terceira camada: a Inteligência Artificial como infraestrutura
Aqui está, para mim, um ponto central dessa tese, e inclusive a que venho me dedicando nos últimos 5 anos, e que tem sido a tese do meu quinto livro que estou escrevendo, e ainda, tenho desenvolvido soluções, trabalhos, pesquisa e tem sido minha dedicação 16 horas por dia pelo menos, nos últimos 24 meses.
A Inteligência Artificial deixou de ser apenas uma inovação tecnológica isolada.
Ela está caminhando para se tornar uma Tecnologia de Propósito Geral.
Tecnologias de propósito geral são aquelas que deixam de ser simplesmente produtos e passam a funcionar como infraestrutura para outras indústrias, como foram as mesmas tecnologias a seguir:
O fogo foi uma.
A escrita foi outra.
A máquina a vapor.
A eletricidade.
O transistor.
A internet.
Existe uma comparação que é particularmente interessante: cem anos atrás alguém poderia perguntar se determinado hotel possuía eletricidade. Décadas depois, perguntávamos se havia Wi-Fi. Em breve, a pergunta implícita poderá ser outra:
“Vocês usam IA?”
Porque IA tende a desaparecer como categoria isolada.
Ela passará a estar dentro de tudo, como:
Saúde com IA.
Agricultura com IA.
Manufatura com IA.
Educação com IA.
Logística com IA.
Robótica com IA.
Energia com IA.
Pesquisa científica com IA.
Nesse sentido, talvez estejamos cometendo um erro ao procurar exclusivamente “empresas de Inteligência Artificial”.
Seria semelhante a procurar, no século XX, apenas “empresas de eletricidade”.
Os maiores negócios surgiram quando eletricidade passou a potencializar outras indústrias.
Acredito que veremos algo parecido neste década. Alguns sinais já estão se mostrando presentes em nosso dia a dia.
Diante disso, é onde entram as Deep Techs.
É exatamente aqui que a tese se torna ainda mais interessante.
Deep Techs não são simplesmente startups que utilizam tecnologia.
São negócios construídos sobre avanços científicos ou tecnológicos difíceis de reproduzir.
Podem envolver:
biotecnologia;
semicondutores;
robótica;
novos materiais;
computação avançada;
energia;
aeroespacial;
sistemas autônomos;
engenharia molecular.
Normalmente possuem alguma combinação de propriedade intelectual, conhecimento científico especializado, patentes e elevada defensabilidade tecnológica.
E existe algo particularmente poderoso nesse modelo.
Enquanto milhares de startups digitais podem construir pequenas variações sobre os mesmos produtos existentes, uma Deep Tech tenta empurrar a fronteira do que é possível.
Uma nova molécula.
Uma proteína que não existia.
Um novo sensor.
Um material mais resistente.
Uma arquitetura computacional diferente.
Um diagnóstico realizado em minutos em vez de horas.
A pergunta deixa de ser:
“Qual aplicativo será popular?”
E passa a ser:
“Qual problema a humanidade inevitavelmente terá que resolver?”
Essa é uma mudança radical na forma de observar inovação.
Mas uma tese à prova do futuro não serve apenas para investidores
Aqui está o ponto que considero ainda mais importante.
Essa mesma lógica pode orientar uma carreira.
Uma empresa.
Um estudante.
Um executivo.
Um empreendedor.
Porque, quando escolhemos uma profissão ou um negócio, também estamos fazendo uma espécie de investimento.
Estamos investindo nosso ativo mais escasso:
o tempo.
E talvez a pergunta mais importante que alguém deveria fazer ao planejar os próximos dez anos seja:
Estou construindo minha carreira perto de uma inevitabilidade ou perto de uma contingência?
Existe uma diferença enorme entre as duas coisas.
Quem constrói competências em torno de necessidades estruturais tende a possuir mais opcionalidade.
Pense em algumas intersecções:
IA + saúde.
IA + manufatura.
IA + agricultura.
IA + energia.
IA + segurança.
IA + robótica.
IA + novos materiais.
IA + ciência.
IA + educação.
Mas note novamente:
a oportunidade raramente estará simplesmente em “aprender IA”.
Ela estará na intersecção entre IA e algum problema real.
Esse talvez seja um dos princípios mais importantes para profissionais daqui para frente.
Não aposte em ferramentas. Aposte em capacidades.
Outro erro frequente é tentar se preparar para o futuro aprendendo a ferramenta da moda.
Ontem era uma.
Hoje é outra.
Amanhã será uma terceira.
Ferramentas têm ciclos cada vez menores.
Capacidades permanecem, e tem mais prova de futuro do que Hypes.
Se eu tivesse que construir hoje um portfólio profissional à prova do futuro, priorizaria cinco ativos intelectuais:
capacidade de aprender rapidamente;
conhecimento profundo de algum domínio real;
fluência em Inteligência Artificial;
pensamento crítico e científico;
capacidade de comunicar e transformar conhecimento em execução.
Curiosamente, aqui vai uma história que ilustra exatamente isso.
Imagine que em determinado momento da carreira, um indivíduo recebeu um conselho: existe um grupo de pessoas extremamente técnicas e outro grupo capaz de comunicar ideias. Mas existe um conjunto muito menor situado na intersecção entre os dois.
Esse espaço de intersecção será cada vez mais valioso.
Porque máquinas serão extraordinárias em processar informação.
Mas organizações continuarão precisando de pessoas capazes de:
interpretar;
questionar;
decidir;
integrar;
liderar;
explicar;
assumir responsabilidade.
Minha tese de posicionamento
Portanto, se eu tivesse que resumir uma tese pessoal de preparação para os próximos dez anos, seria esta:
1. Identifique as inevitabilidades. Demografia, urbanização, escassez de recursos, produtividade, automação, computação e biotecnologia possuem vetores estruturais fortes.
2. Observe os problemas derivados dessas inevitabilidades. Quanto maior o problema, maior tende a ser o espaço econômico para soluções.
3. Identifique as tecnologias que funcionam como infraestrutura. Hoje, Inteligência Artificial é provavelmente a mais importante delas.
4. Procure as intersecções. As maiores oportunidades dificilmente estarão em IA isoladamente, mas em IA aplicada à saúde, indústria, agro, energia, materiais, ciência e infraestrutura.
5. Construa competências transferíveis. Ferramentas desaparecem. Capacidade de aprender, analisar e executar permanece.
6. Pense em décadas, não apenas em meses.
Esse último talvez seja o mais difícil.
Nossa sociedade recompensa continuamente o curto prazo, como:
Notificações.
Resultados trimestrais.
Trending topics.
Viralização.
Valuation.
Engajamento.
Mas algumas das maiores transformações da história foram construídas durante décadas.
O futuro pertence menos a quem prevê e mais a quem se posiciona
Nenhuma tese é realmente “à prova do futuro”.
Cisnes negros existem.
Tecnologias fracassam.
Empresas desaparecem.
Ciclos econômicos mudam.
Regulações surgem.
Guerras acontecem.
Justamente por isso, a melhor estratégia talvez não seja procurar certeza.
É procurar robustez.
Construir uma posição que continue fazendo sentido em diferentes cenários.
Se as pessoas viverão mais, alguém precisará cuidar da longevidade.
Se menos pessoas estarão no campo, alguém precisará aumentar a produtividade agrícola.
Se mais pessoas viverão nas cidades, alguém precisará resolver mobilidade, energia, segurança e infraestrutura.
Se Inteligência Artificial se tornar infraestrutura, praticamente todas essas indústrias serão transformadas por ela.
Isso não significa saber quais empresas vencerão.
Mas talvez seja suficiente para saber onde olhar.
E, quando pensamos em carreira, existe uma reflexão ainda mais importante:
Não precisamos necessariamente investir dinheiro nessas tendências.
Podemos investir nossa formação.
Nossa curiosidade.
Nossos relacionamentos.
Nossos projetos.
Nossa capacidade intelectual.
Nosso próximo negócio.
Porque o melhor ativo para posicionar diante do futuro talvez ainda seja nós mesmos.
Velhos mapas não nos levarão para novos caminhos. Essa frase me acompanha quando encerro minhas palestras, e quem assistiu já ter a visto.
Mas também não precisamos atravessar o futuro no escuro.
Algumas forças já estão diante de nós.
O desafio é reconhecê-las cedo o suficiente — e decidir de que lado delas queremos estar.
Nota do autor: este artigo apresenta uma tese de reflexão sobre tendências, posicionamento profissional, inovação e futuro. Não constitui recomendação, indicação ou aconselhamento de investimentos.
Se você gostou, e quer levar essa visão para sua empresa? Ou entender como aplicar essa tese na sua realidade? Fale conosco. A hora de arquitetar o futuro… é agora.
Fonte: LinkedIn